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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Coitadinho -- O sentido das palavras I

por Lo-Chi

Não; não tem haver com aquele programa da Rádio Moçambique. Aqui vamos procurar a lógica ou ilógica do sentido da palavra, no caso, coitadinho. Na minha juventude tinha um amigo, cuja graça era Sozinho Acompanhado, que pura e simplesmente abominava a palavra coitado. Coitadinho menos ainda. Quisesses, o chamasses de desafortunado, azarado, infeliz, aí não havia problema nenhum. E nós nunca o compreendemos. Contudo a aversão ao sufixo inho do coitadinho, a partida inimaginável, já que o seu nome tinha esse sufixo, eu compreendia, posto que ele é ambivalente na significação, já porque algumas vezes serve para manifestar carinho, afecto, bem como outras vezes serve para indicar desprezo, diminuição de qualidade. Sendo, compreendia a lógica do meu amigo, de não querer ouvir ser chamado de coitadinho, correndo o risco de estar a ser diminuido. E já que estamos com a mão na massa, vamos esmiuçar a palavra coitado que é o objecto desta nossa conversa.

Coitado, tem a sua derivação da palavra coito, que significa cópula, cujo significado é relação sexual, isso para reduzirmos a quinhenta e ficarmos todos sem dúvida nenhuma, e no mesmo patamar de entendimento. Vamos funcionar no processo com aquelas duas palavras: coito e cópula. O substantivo cópula originou o verbo, copular, acto de cópula. Logicamente que o substantivo coito tinha que, nessa linha, dar o verbo coitar, que teria que ter o mesmo significado, e do verbo na sua conjugação, lógica e paralelamente, já que o verbo copular deriva o particípio passado copulado, o coitar vai dar ao particípio passado coitado. Foi aqui onde comecei a entender o meu estimado amigo Sozinho Acompanhado. Porém, aqui estamos em termos de lógica. Como o português muitas vezes está destituido de lógica, lá fui aferir as minhas conclusões ao dicionário*; resultado: confirmadíssimo! Cópula, dá origem ao verbo copular que significa relações sexuais. Porém o substantivo coito fica sem verbo, ou melhor o verbo coitar, acaba diferentemente do copular, tendo um significado quase que antónimo da lógica, significando, proibir o ingresso numa propriedade, vedar; quando o coito necessariamente implica intrusão, acesso; e quando verbo transitivo, é-lhe arbitrado o significado de, molestar. Que raio de absurdo! Foi a minha primeira reação. Mais calmo e menos surpreso, indo a idiossincrassia dos portugueses, fiquei com a impressão que o linguista, na hora h, sofreu de um espasmo de pudor, típico, em determinados ambientes, e de repente não foi capaz de chamar as coisas pelo próprio nome, ficando influenciado por aquela prática frustrante, de que a relação sexual, traz consigo, na vez do prazer, dor; deveria estar a imaginar uma mulher sofrendo de vaginismo, ou provavelmente, as reminiscências da infância reprimida acabaram determinando. Lembram-se decerto quando crianças, das vezes em que nos diziam que tinha dentes. Porém, isso é matéria para outro fórum, dos discípulos de Freud em companhia. No entretempo, continuei na minha senda, fui encontrar como significado do termo coitado; infeliz, miserável, (pleb), aquele que foi traido pela esposa. Aí percebi melhor ainda o Sozinho Acompanhado. Mas o ter percebido ou encontrado as causas da sua aversão ao termo, não me satisfazia. Porque, segundo o dicionário, conferiu-se significado de coitadinho; marido a quem a mulher engana. No caso, não era o coitado, na origem etimológica ou se quisermos, lógica do termo, já que esse marido não participou no coito. Os coitados foram, sujeitos activos, ou sendo, a mulher e o transfuga. Onde é que ele, o marido, entra para ser coitado? Dúvida legítima. Mais ainda, o coito é uma acção recíproca, actividade de dois; mas há uma errada tendência de se conferir ao macho ou homem, a autoria do acto; quiçá por uma indução anatómica. Verdade porém, é um acto de reciprocidade: de intrusão recíproca, de prazer recíproco. A minha experiência, assim me dita. Por isso, não há um coitado, há pares que se coitaram: há coitados. Fiquemos claros; e aí dou razão ao Sozinho Acompanhado, meu prestimoso amigo. Coitado nem pensar, menos ainda coitadinho! Coitado, dizia ele, fui uma vez, quando me deram o nome de Sozinho Acompanhado!

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Nota do autor: para aqueles mais duros da cabeça, ou preferindo aquele termo da periferia social, podem introduzi-lo no lugar de coitar. Não fico zangado por isso.

* Dicionário da Língua Portuguesa por J. Almeida e Costa e A. Sampaio e Melo-Porto editora 5ª.edição


terça-feira, 4 de junho de 2013

Deus é preto


por Lo-Chi


Não faça antecipadamente juízos de valor. Leia, e tire a sua conclusão, diferente ou igual, por sua conta, gosto e risco. Há pouco tempo, li um artigo,  que recebi na minha caixa de email, onde um articulista angolano, Isomar Pedro Gomes, motivado por uma frase estampada no vidro para-brisa, a exemplo dos nossos chapas cem, cuja frase dizia taxativamente: “Deus é branco, anjo é mulato e demónio é preto”. E ele, secundando com os seus argumentos e na perspectiva, dizia que poderia aceitar Deus ser branco, abstinha-se de falar do mulato e decididamente afirmava, depois de diversas demonstrações feitas, na base dos nossos dirigentes a nível da política do continente, que Deus, preto não  era com toda a certeza. A forma como sustentou a sua tese, dá-lhe toda autoridade para conclusão tão nos desfavorável.

Quando olho para a África, continente negro, terra de origem de nós pretos, e noto que no contexto mundial, tem como característica ser um local onde todas as religiões confluíram e confluem: budista, muçulmana, hindu, cristã, animista, sem falar das meras oportunistas comerciais, etc. etc., e convivem numa harmonia pouco comum, obriga-me a reconhecer o espírito de tolerância e de harmonia própria deste povo. E mais, a presença de muito Deus, ou melhor de muitas manifestações divinas em nós; só podemos ser filhos Seu.

A África, expressão de vários conflitos, motivo de várias cobiças, berço de várias lutas muitas com proporções des-humanas, nesse ângulo a presença inequívoca do diabo, tentando é evidente. E costuma-se dizer onde Deus está, o diabo idem, para poder frustrar as intenções de salvar a vida humana, para além do carnal ou material, como se quiser designar. Mas o preto vai sobrevivendo, as investidas do diabo, mas como mártir. Um mártir sem rancor. Que se expressa em diversas formas, uma das quais, a forma como se relaciona com o seu antigo colonizador, que antes o torturou, vilipendiou, quis reduzi-lo a quinhentas, mas ultrapassou, e recebe-o hoje bastas vezes, na aflição em que a Europa está fustigada, com os braços abertos, num amplexo de irmão. E mártir assim, só pode ser filho de Deus.

Na África, todos os dias se dão milhares de milagres, famílias enormes com salários de miséria, condições de sanidade; ambiental, humana, mental indescritíveis; vivendo. As unidades sanitárias que deveriam ser o centro de mitigação e ou solução dessas carências, encontram-se muitas vezes sem o básico de medicamentos. Acresce-se as humilhações de toda espécie e feitio, que a população tem de passar. E o negro vai sobrevivendo. Vai sobrevivendo com um sorriso nos lábios, sempre cantando; na dor ou na desgraça. E esse sobreviver, onde vai inventar forças para o efeito é algumas vezes assustadoramente surpreendente.  Só pode ser por milagre de Deus. Quando olho para as contrariedades que a vida desse povo traz as teorias científicas e técnicas, como carros podres viajando com montes de pessoas, sem acidentes e sem avarias, por aí além, aviões em condições precárias, no estilo de chapa cem, voando sem quedas de monta, pontes e prédios tecnicamente falidas, porém sobrevivendo a previsível queda, de tão carcomidas as estruturas, contudo sólidas como as de manutenção regular, autênticos milagres de sobrevivência, só pode ser obra de Deus. Deus está na África, Deus é africano.

Estava eu, certo dia, aflito e fui ter com um médico amigo, estrangeiro, que atendendo ao meu grito de aflição, sai do seu gabinete para me receber e no entretanto, estava saindo o seu doente acabado de ser atendido. E ele disse-me: estás a ver aquele senhor, que vai ali. Tecnicamente está quase morto. Mas vê, ele vai andando normalmente com os seus próprios pés, sem tonturas, sem nada. E eu espantado perguntei, Porquê?, e ele, Num outro sítio do mundo, ninguém acreditaria. Ele tem dois de hemoglobina. Isso só pode ser milagre. Não sei se referiu-se ao milagre com intenção ou não, porém estava tentando retratar a enormidade do facto.

Senhores tanta protecção; ao que sofre, mas canta; debilitado, mas vive normalmente; vilipendiado tão recentemente, mas perdoa, quase de imediato; meus senhores, Deus benevolente, só pode ser preto. O articulista do texto que me referi no primeiro parágrafo, decerto confundiu políticos com população. Agora, quem quiser adjectivar o termo político que o faça. Eu não; que o diabo anda aí, à solta.



sábado, 25 de maio de 2013

A propósito de bananas



por Lo-Chi



Já estou a ver o seu sorriso matreiro, ou como diria o brasileiro, o seu sorriso de sacanagem. Vou frustrar-lhe ligeiramente, e já saberá, porquê ligeiramente. Eu vou mesmo falar da banana. A banana, fruta, realço para me afastar dos bem intencionados, é uma fruta cuja origem remota há mais de 8.000 A. C., e de acordo com a Wikipédia, a banana ou  “pacoba ou pacova  é uma pseudo-baga da bananeira, uma planta herbácea vivaz acaule da família Musaceae (géneroMusa - além do género Ensete, que produz as chamadas "falsas bananas"). São cultivadas em 130 países. Originárias do sudeste da Ásia (com excepção da banana-da-terra, que é nativa do Brasil ), são actualmente cultivadas em praticamente todas as regiões tropicais do planeta. Vulgarmente, inclusive para efeitos comerciais, o termo "banana" refere-se às frutas de polpa macia e doce que podem ser consumidas cruas.”
Sem termos que consultar coisíssima nenhuma, sabemos que existe, mesmo em Moçambique, uma variedade enorme de bananas, em termos de tamanho, bem como de sabores, assim como de cores e odores. Desde a que chamamos puramente banana, como banana macaco, assim como a banana maçã, banana roxa, banana para cozinhar etc.. Em termos de produção exportável, na América Latina, em muito dos seus países, chegou a ser o produto básico de exportação, numa espécie de mono-cultura dependente, de tal maneira que quando o preço da banana despencou, desestabilizou a balança de pagamento e a economia. Julgo que foi uma das primeiras grandes lições, na prática, do malefício da mono-cultura.

Para além da variedade da banana, a forma de consumí-la, varia imenso de país para país. Ao que me parece, dos países que conheço, quem mais integral e diversificadamente assim o faz, são os da América Latina com um especial para Cuba e Brasil, onde ela é consumida como fruta, madura, verde, cozida, crua ou meia-crua, fazendo parte do cardápio. Porém a Ásia, também faz dela uma grande provedora de nutrientes. Posto que, como sabemos, a banana é portadora das vitaminas A , C, fibras e potássio. Mas para além da própria polpa, a casca, que também contém vários nutrientes, é consumida em jeito de; farinha; bife empanado de casca de banana; bolo de casca de banana; e diz-se com óptimo paladar. Da casca, um mito percorreu alguns sectores da sociedade americana, onde se dizia, que possuia efeitos aluçogênicos. Verdade porém é que a banana tem uma capacidade radioactiva, mas de uma radioactividade muito baixa. Mas quando em grandes concentrações, como no caso das grandes exportações em porões de navios, já diversas vezes accionou instrumentos de controlo de radioactividade. Mas saiba, que em termos de aproveitamento da bananeira, não se esgotou. Aquele cone roxo, que sai depois do cacho da banana, designado invariavelmente de umbigo da banana ou coração de bananeira, o seu miolo é comestível, integrado em culinárias, como no bacalhau, carne moída ou linguiça, bem como para fins medicinais, utilizado como xarope. Para além de aspectos culinários, o termo banana foi e é basta vezes usado com sentidos vários. Já ouviu decerto falar “puseram-lhe uma casca de banana”, bem como “república das bananas”, e ainda “aquele homem é um banana”, etc., etc..



Um desses dias, estando numa cavaqueira sobre o sabor das frutas e quejandos, acabamos falando da banana, muito a propósito do facto, de havermos mandado a empregada doméstica comprar frutas e ela vir dizer que havia a banana que a senhora gostava. Era aquela banana pequena, muito saborosa, a que eu faço sempre confusão; nunca sei, se chama-se banana-macaco ou se banana-maçã. E na sequência da empregada, a minha irmã, faz afirmação, de ser raro aparecer, no mercado, esse tipo de bananas, e daí a minha informação, que o mercado onde aparece e consome-se todo o tipo de bananas, ser o mercado de Nampula. E a minha irmã na sequência dizer , Olha, a minha cunhada diz que na Beira, só sai e consome-se essas bananas grandes. Vai daí, que dois, de outros três indivíduos presentes, do tipo de mente igual àquele leitor que sorriu no princípio dessa nossa exposição, saem com uma conversa, em que pegam no termo banana, no seu sentido metafórico, muito no jeito, apesar de disfarçado, porém notoriamente visível, de que cada um, no fundo bem no fundo, estava sim, defendendo as suas respectivas anatomias do baixo ventre, como sói dizer-se, numa linguagem de salão, entre os bem e os mal dotados. Dizia um, Estás a ver; as senas e as ndaus sabem bem o que querem, o tamanho determina. E outro foi replicando, Não, as macuas sabem que tamanho não é documento. 

No meio desses papo de macuas sabem e as senas  e ndaus não e que sim, de documentos e competências, sai-me um dos presentes, que até a altura não tinha intervido, Mas nós estamos aqui a falar de tamanhos ou de sabores da banana?!”, aquilo foi uma explosão imediata e automática de riso, com tal intensidade que acabamos com aquela dor muscular no abdómen, e ele, o único imune a este ataque de hilariedade. E chegados a este ponto, o quê que diremos: que este sujeito foi um distraído; de compreensão lenta; ou disse a coisa mais acertada? Se parvo era ele, ou nós que o rimos? Fica ao seu critério caro leitor. Isso, muito a propósito de bananas.



quarta-feira, 22 de maio de 2013

Cronistas e crónicas




por Lo-Chi



Crónica, cuja definição e integração me escapa, mas com a percepção de que é um género que se indefine entre o literário e o jornalístico, desde cedo me cativou. E mais do que as notícias, eram as crónicas o móbil da minha ligação com os jornais e as revistas semanais, como por exemplo, o jornal Notícias, na altura, e a revista Tempo, e mesmo hoje com os hebdomadários, elas continuam sendo o meu atractivo primeiro. Desde cedo, lia-as; e aquelas que me surpreendiam, eu as recortava e punha-as num arquivo pessoal; de tempos a tempos revisitava-as.

Já não me recordo o nome da coluna, porém registado o do colunista cuja graça, Nuno Bermudes, foi um dos responsáveis pela meu gostar por este género de expressão, e sempre, quando abrisse o Notícias, eu corria a sua coluna. Recordo-me da primeira que li, uma crónica de viagem a Ponta de Ouro, e que me marcou indelevelmente. Essa crónica falava de uma viagem atribulada, cujas condições do terreno eram tão péssimas, que quando ele chegou ao destino, e foi fazer o inventário aos orgãos internos do seu corpo; assustou-se, porque o coração não estava no seu lugar, na vez dele encontrava-se os intestinos, quando procurou pelo pâncreas estava no lugar dos intestinos e o coração no lugar do fígado. Essa crónica marcou-me definitivamente pela imaginação e criatividade. E quiçá, foi quem me levou a uma paixão desmedida às crónicas. E a partir daí, fui entrando em outras como por exemplo, uma outra coluna semanal, do mesmo jornal designada “Zambézia de lés-a-lés”.

Aerosa Pena, considerado por muitos como o ícone desse género, em Moçambique, talvez o tenha lido na revista tempo. Porém a minha relação consciente, próxima, com ele, de cronista e leitor, foi definitivamente no seu livro, que figura no meu escaparate, cujo título é “O cronista”.

Sauzande Jeque e a sua coluna, semanal, “Mirante do Zambeze”, abraçou-me no primeiro contacto, pela forma mui sui generis de escrever, quase mantendo aquele rítimo, que faz adivinhar o sotaque nhúnguè. Primeiro li-o e depois fui ouvindo-o na Rádio Moçambique. E a crónica que me pôs extasiado perdia-a. Vou à Tete, numa viagem programada para o Malawi, naquelas famosas colunas que partiam de Moatize e terminavam no Zôbuè. Sou apresentado ao Sauzande e não sou capaz de ficar imune a expressão confessa de frustração, que sentia por ter perdido a crónica dele, que eu mais gostava. Afirmação que era apenas e simplesmente uma expressão de frustração, e simultaneamente manifestação de contentamento de conhecer o cronista, de quem admirava. Qual foi o meu espanto, quando do regresso do Malawi, ele naquele seu jeito, me traz uma cópia dactilografada, e oferece-me. E é com agradável prazer, que tenho as suas crónicas hoje reunidas em livro o qual muito gentilmente autografou. Vou acompanhando-o no seu “Devezenquandário”.

Fernando Manuel, o primeiro contacto que tive com ele, foi não como cronista, mas como pessoa, precisamente em Quelimane, quando com um problema de visão, ele vai a mesma, em busca de tratamento, porque naquela altura, estava um médico cirurgião oftamologista, indiano, cuja fama ultrapassava os limites da província da Zambézia e atrevia-se a chegar a capital. Foi assim que vi e conheci, em casa de um amigo comum, aquele que seria um dos meus cronistas de eleição, fora dos paradigmas, irreverente, linguagem umas vezes assepticamente arruaceira, (transportando-me ao Jorge Amado) autêntica, corajosa, completamente livre e despudorada e simultaneamente pitoresca. Quando compro o Savana uma das minhas miras é ler este cronista.

Arune Valy, os meus cruzamentos com ele sempre foram exclusivamente através das ondas cartesianas da Rádio Moçambique, onde vai contando histórias e factos a princípio de Tete, principalmente sobre os crocodilos do Zambezi e suas diabruras, e posteriormente da cidade da Beira. Não sei bem, porque carga de água, ele fazia-me sempre lembrar o Sauzande. Nunca cheguei a perceber bem porquê. Ja não o oiço há um bom par de tempos, por problema de horários.

Mia Couto, no seu “cronicando” semanal, que virou livro, deu sem dúvida uma lufada de ar fresco naquele português, língua, muito português demais, aproximando-a mais do linguajar falado, muito a jeito de levar o subúrbio ao terreiro do rei, e de certa medida, ensinou-nos a sermos um pouco mais nós mesmos, pelo menos literariamente.

José Saramago, ele um autor português de uma escrita muito densa e esotérica, pontuação revolucionária, controverso, de temas absolutamente irreverentes e ousados, recordo “Evangelo Segundo Jesus Cristo”. Aliás, até hoje, apesar de ausente terrestre, motivo de polémicas, celeumas e escarceu, ao mais alto nível político em Portugal. Como cronista, foi para mim maravilhoso ler o livro “ A bagagem do viajante”, num estilo escorreito, mas menos hermético ou talvez, menos denso e mais lépido. Com histórias, factos e análises da vida portuguesa, quando, pelo que transparece, ele labutava como jornalista.

Helder Muteia foi um dos cronitas, também dos novos tempos da nossa independência, o qual me levava a comprar o Notícias, no dia aprazado. Foi óptimo comprar o seu livro, “Nhambaro” e reler “Técnico wa Mabassa” onde descreve um personagem típico, desenrascador e desenrascado, pau para toda obra. Do Helder gosto mais dele como poeta. O seu recente livro, “ O sonho ao avesso” encheu-me as medidas, posto que ele com simples palavras quotidianas foi maravilhosamente sublime na expressão, revelando-se num eretismo único. Um livro bem conseguido.

Luís Loforte também foi um dos ímanes semanais que me atraiu aos jornais. Adorei comprar o seu livro e rever o Inhassunge retratado no seu livro, “Diálogos do desencanto” compilação das suas crónicas.

Fernando Namora, português, médico de profissão, conseguiu juntar os conhecimentos e experiência da sua profissão, com a sua sensibilidade  humana, e de uma forma competente e agradável fazer a simbiose do profissional e do humano, metamorfoseado no livro “Retalhos da vida de um médico” que me extasiou desde a primeira crónica. Dessa primeira crónica ficou-me o personagem, que de aluno cábula, salóio, motivo de chacota, quase um inexistente, que se transforma num profissional matreiro, com jogo de cintura, estabelecendo conexões, que apesar da sua quase ignorância e incompetência, sobe alto nos degraus da sociedade. Em resumo, burro mas esperto, suficiente quanto baste para saber com quantos paus se faz o “sucesso”.

Para além de cronistas, cujo conjunto da obra me levaram ao outro tipo de apreciação literária, ouve um caso de uma crónica, ao estilo da primeira que me referi, que me marcou indesfarçavelmente. Não sei quem foi o autor, sei apenas que estampada numa página da revista Tempo e se a memória não me falha, acho, se não na mesma coluna, pelo menos na mesma página da coluna “crónicas de carteira”. Guardei essa crónica como se ouro se tratasse, porém a mesma inexplicavelmente desapareceu: “O cauteleiro com óculos de aros de tartaruga”. A história situada no tempo colonial, e na cidade de Lourenço Marques fala de alguém com aspecto de cauteleiro. No final sabe-se que é um alferes militar colonial, preto, nascido na Maganja da Costa, o qual entra no café Scala, e pede um prego no pão bem passado, e daí desenvolve-se toda trama que termina em cacetes, polícia civil e polícia militar, pide, etc.. Uma épica história bem urdida, com intensidade e suspense, acredito que inspirada no dia a dia, do histórico final colonial e as contradições próprias do sistema.

PS: Ciente de que não falei de dois dinossauros, quiçá mais, Heliodoro Baptista e Carlos Cardoso, todavia senti-me sem competência nem estatura para falar deles.

terça-feira, 7 de maio de 2013

As figuraças do meu tempo




por Lo-Chi




Todos nós, que crescemos em bairros sub-urbanos*, acabamos tendo uma infância similar, onde as brincadeiras imperam, os gozos, as alcunhas são o pão nosso de cada dia. A vivência nos bairros acabam sendo quase que tirada a papel químico. Estou aqui para falar um pouco da vida desses centros populacionais; e no caso, das figuras marcantes, do meu Kansa, o qual se situa bem na cintura da cidade de Quelimane. Esses famosos, eram-no pela singularidade de comportamento, fugidos do protótipo do cidadão probo. A maior parte deles, não viviam no bairro, faziam deste o seu espaço de trânsito, entre a cidade de cimento e outros bairros sub-urbanos*, mas deixando a sua marca, e normalmente conhecidos pela sua alcunha.

Domingos Xirico, uma figura de estatura média, habitualmente auto-transportada de bicicleta, cuja alcunha, Xirico, acrescida ao nome,  advinha, dizem os mais velhos, do facto de um fenómeno que o levou temporariamente as grades, afirmam uns, enquanto outros afiançavam que com alguma frequência se hospedava no xadrez, e por analogia ao pássaro xirico engaiolado, assim passou a ser conhecido. Mas a sua fama também ganhou forma e proporção, como sendo o homem das viuvas, de acordo com os relatos do tempo. Nenhuma se lhe escapava, com o devido desconto como é claro. Dizem os contos da altura, que bastava anunciar-se a morte de alguém do sexo masculino, cujo cônjuge fosse de não se desperdiçar, que era quanto bastasse, para a nossa figuraça começar a manusear os seus tentáculos.

Vasco de Oliveira, figura conhecida, não apenas no meu bairro, como na maior parte dos outros da cidade, por um facto que se pode dizer, que quase comum no perfil dos nossos pais, na altura; vários filhos e com senhoras diferentes. Porém o caso do Vasco de Oliveira, contabilista de profissão, contabilizou senhoras e filhos, superiormente acima dos números já exagerados dos nossos pais. Bateu verdadeiramente o recorde do guiness book provincial, fruto de amparos a damas sedentas de calor. O número era tão grande que ficou indeterminado.

O Aligy, franzino, de altura acima da média, com uma infância caracterizada pela alergia pelos livros, acabou como porteiro do cinema Águia, onde como um cão de fila, adjectivávamos nós, apurava o seu faro para impedir infiltrados, nós, os desafortunados do bolso, que entretanto queríamos alimentar a nossa cultura, através da sétima arte, porém quase sempre frustrada a tentativa, quando sem o bilhete autorizador, devido ao zelo implacável desta figura. Outra característica sua, que granjeou fama, foi a sua habilidade na arte de sambar, que punha à apreciação pública, todos os meses de Fevereiro na semana carnavalesca. Contudo, uma outra característica, essa mais clandestina e menos pública, todavia conhecida por nós, catapultou-o a outros níveis de figura incontornável nos nossos temas de conversa de bairro, era o facto de, ou nos filmes picantes ou nas suas investidas na violação clandestina de determinadas intimidades privadas femininas, se embalar em momentos de euforia manual.

A grande figura da miudagem, objecto de gáudio da meninice do bairro, era sem dúvida o sapateiro de profissão, mais conhecido pelo inexplicável e auto-denominado, David Campeão do Mundo. Normalmente ébrio, com monólogos de alta intensidade, rasgando os céus do bairro, fazia-se anunciar na sua passagem, quase sempre acompanhado de uma multidão de putos, seus adeptos, que éramos nós. No seu ar, meio de ébrio e meio de mendigo, de quando em vez, tinha tiradas com uma profundidade incomum, bem como frases que ficavam nas nossas mentes: a vida não tem rascunho! Sentenciava. Quando não, avisava: o arrependimento é o rei dos atrasados. Outras vezes, justificava-se ou fazia-se entender: sofrer com paciência a fraqueza do nosso próximo. Sem sequer imaginar que ele teria tido alguma experiência amorosa, tira-me esta: O desencanto é uma fase dos grandes amores e o fim dos pequenos. De quem não se conhecia gosto de leitura, nem relacionamento sentimental, estas frases levavam, aos mais avisados e perspicazes, a concluir, que esta personalidade era de todo enigmática e que decerto  a sua aparência era uma fraude.

Outra figura não menos hilariante; motivo de um cardume de miudos ao seu encalço, quando pelo bairro transitasse, cuja profissão era também sapateiro, residente num bairro vizinho, o Moreira; era o Vicente, designado variavelmente por Vicente Namarrogolo ou por Vicente Cólô, o qual ficou famosamente conhecido, por ser um grande protector das suas goiabeiras, carregadas de goiabas, claro, as quais eram um engodo para a miudagem se fazer a elas, sob o risco de ser baleada pela fisga do proprietário, mesmo que por ele autorizado, cujo pretexto se figura na pergunta que impunha: Eu disse para tirar dois guião, um guião?

Sujeito bem parecido, sempre janota, de boas famílias, contudo, com duvidoso gosto pelo trabalho, nos últimos tempos então, sofrendo de uma profunda alergia a qualquer esforço criativo de bens, porém bem relacionado, dando-lhe o facto, a prerrogativa de se fazer boémio, resumindo: un bon vivent.  Carlos Pedro, mais conhecido pelo nome de 101, pelo hábito de impôr a sua presença em todas as festas famosas da cidade, convidado ou não, de tal jeito que se tivesses 100 convidados tinhas que contar com mais um, que era o famoso pendura; daí a alcunha do 101.

Mecânicos haviam muitos, uns muito bons e outros nem tanto assim, porém, um destacava-se pela singularidade de estado etílico quase saturado e permanente, cuja bebedeira nunca se sabia se era desse dia ou se do dia anterior. Não obstante, quanto mais grosso mais competente, segundo os testemunhos dos nossos pais. Diziam que nesse estado qualquer problema do motor ele diagnosticava, apenas abrindo o capot do carro e ouvindo-o trabalhar, determinava com autoridade e competência e dava-lhe o remédio exacto. E mais, o seu corpo estava tão embebido em álcool, que em vida jamais apanhou infecção que fosse! Nome: Ernesto Falso Lobo, mais conhecido por “champion”, mecânico de mão cheia, assim o chamavam. Decerto o advento dos actuais computadores auxiliares de diagnóstico

Agostinho Maluco, assim chamado pelo seu ar quase infantil, que lhe dava um aspecto físico de atrasado mental, porém de uma inteligência reconhecida e de aspecto imaculadamente limpo. Não obstante este pequeno grande pormenor, era motivo de chacota da miudagem. Após ter feito o seminário menor, enveredou pela vida de cidadão comum, deixando aparentemente o celibato, meteu-se em alguns concursos para o aparelho do estado, tendo ficado nos primeiros lugares. Mas optando pelo lugar de contínuo de uma das escolas secundárias, apesar de ter conseguido na altura o 5.o ano do liceu como equivalência. E quando lhe perguntamos, porque é que queria ir para contínuo, ele rapidamente respondeu: para continuar!

Figura burlesca, bobo de festa das maldades dos meninos de bairro, era o Aligybai. Uma vestimenta a roçar o ridículo, cores vivas e desencontradas, com uma aparência própria de palhaço da corte, gordo, barrigudo, porém de altura respeitável. Comia em qualquer casa, na qual lhe dessem o mínimo de confiança, com um despreendimento, a coberto da ingénua parvoíce, que ele próprio alimentava, com o ar de maior desgraçado do mundo. As crianças que o acompanhavam no acto de atravessar o bairro, faziam-no sempre com a invariável música que tinha como letra: Alujubay khana mwiana. Aligybai não tem mulher. Quando morreu, deu-se com uma história surpreendente. O Aligybai, para além de ter uma filha, o que desmentia o boato de que era eunuco, bem como mais surpreendente ainda, era possuidor de uma conta bancária que embasbacou muitos, como ultrapassava a de muitos dos que lhe deram de comer em vida.

Naquele tempo, não fazia parte do inventário léxico usual, os termos fofoqueiro, nem sequer boateiro. Aliás ele até nem era.  O velho Paulo, de profissão barbeiro, apenas contava histórias reais e verídicas, dando-lhe uma pitada de interesse, com um ou outro ingrediente da sua autoria. Longe dele a intenção de faltar a verdade, apenas imperava o dever de dar mais graça e interesse ao facto. Certeza,  tínhamos todos nós, que era o homem mais bem informado do bairro. E a  ele recorríamos, como hoje recorremos aos midias, com o pequeníssimo pormenor de que na altura não havia internet. Quando ias para cortar o cabelo, ele nunca recorreu ao televisor nem sequer ao rádio de pilhas, para entreter, e nem sequer ao ar condicionado, para prender os seus clientes. Ele próprio assumia as despesas da atracção, e informava a clientela com histórias verídicas, com alguns pontos acrescidos. Figura castiça e já extinguida. Já não nascem mais paulos barbeiros.

Que saudades da minha infância, algumas vezes involuntariamente maldosa mas sempre com aquela pueril ingenuidade; saudades também do meu bairro, com estas e aquelas outras todas personalidades que não falei, que preenchiam o nosso universo de aventuras idílicas. Sarabá bairro Kansa.

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Nota: uma amiga desafiou-me a falar também das figuraças femininas da altura. Porém a peculiar longevidade da mulher, coibe-me de fazê-lo posto que algumas delas ainda em vida. Isso tendo em consideração o facto de que a brincadeira tem a virtude de divertir, porém o perigo de ferir, como ja referi uma vez
*Esta grafia é propositada






sábado, 20 de abril de 2013

Necrópsia de Muxúnguê


por Lo-Chi




A unanimidade da necessidade de diálogo e não a troca de palavras,  a ânsia de uma paz a qualquer preço, menos a guerra, a aversão à arrogância de alguns, a expressão de descontentamento, a necessidade de unidade, e a pergunta onde estávamos nós, para que esta situação tenha chegado até onde chegou, cresce, e obriga-nos a repensar o pretérito, quer o imediato como o distante.

Deve-se dialogar, dizemos e é bom especificar, avaliando o passado onde quem tem a maioria, não tem só por isso sempre razão, principalmente quando não tendo. Deve ter a humildade suficiente, para dotar-se de capacidade de ouvir e atender o que não é da sua autoria, mas que contribui para um futuro de todos nós. E nós vimos; propostas com mérito reconhecidíssimos, rejeitadas; variadíssimas vezes, alguém com razão ser-lhe negada, e por isso rebelar-se. E nós na vez de dizermos que tinha razão de se zangar, esquecíamos o essencial, íamos para o formal e dizíamos que era boçal. Estávamos a cavar o fosso entre moçambicanos.


A arrogância que rejeitamo-la hoje, com quase unanimidade, com excepção dos que dela se beneficiam, foi cultivada aos nossos olhos com a nossa completa passividade e cumplicidade, quando víamos os nossos dirigentes espezinhando uns, tornando-os cidadãos de segunda. Quer através de palavras, como através de acções; económicas, sociais, políticas e nós ríamo-nos. A arrogância foi crescendo, quando um único partido foi criando sedes em tudo que era lugar e vimos, outros a tentarem fazer, e serem ilegalmente dizimados, e não fomos capazes de levantar as nossas vozes, num gesto preventivo e de apelo a legalidade e a constitucionalidade. Dissemos que era problema dos políticos. Estávamos a cavar o fosso entre moçambicanos.


Tolerância política, dizemos ser necessária, mas para alguns essa tolerância deve ter um único sentido, o inverso não vale. Vemos sedes a serem queimadas, reuniões a serem sonegadas, reivindicações esmagadas, tribunais partidarizados, polícias alienados, empregos elitizados, não dizemos nada. Pior que tudo, não podemos fazer nada! Estamos a cavar o fosso entre moçambicanos.


No jogo político, as finais que determinam quem ficará como campeão do campeonato, sempre houve um dos clubes que se opós a forma de se constituir a equipa de arbitragem. E sempre conseguiu ter para si, com capa de legal, o árbitro principal, mais um juiz de linha e mais o quarto árbitro. E nós fomos assistindo manietados, em mais de três pleitos, em que só um conseguia valer o seu ponto de vista e sempre achamos normal; e sabíamos das manipulações. Um gozava com a situação e outro se enfurecia; e nós assistíamos ao facto. E sempre, apenas um era visto como tendo razão. Como se já não fosse muita razão num só camião; e aceitávamos. Estávamos a criar o fosso entre moçambicanos.


Quando dos prejudicados, há um que parece conhecer bem o adversário, que parece ser inimigo, e ele sabendo, age em conformidade, toma a força para contrabalançar,- Muxúnguê - estamos a querer dizer que é inconstitucional, ter isto e aquilo, agir desta e aquela maneira, mesmo que em resposta. Quando esquecemos, de que há alguém que anda, do sul ao centro e norte, na ilegalidade e na inconstitucionalidade dos actos. E por medo ninguém abre a boca. Estamos a cavar o fosso entre moçambicanos.

O fosso que cavamos entre os moçambicanos, não deve ter continuidade, porque Muxúnguê deu o sinal de alerta, numa espécie do incómodo alarme sonoro. Muxúnguê veio dar razão a Joaquim Alberto Chissano, que avisou que a paz não é ausência de guerra. Muxúnguê veio avisar-nos de que o ódio acumulado, está já a extravasar. Muxúnguê revela-nos que nós ensaiamos uma construção da paz, que a certa altura foi interrompida e estivemos passivamente assistindo a edificação de uma guerra fraticida. E hoje, a quem culpamos? Nós sem excepção é que fizemos este país. Ele é nosso fruto. Esse ambiente de medo, de  guerra latente, nós o fizemos, quando nos dividíamos, manipulados ou não, com medo ou não. Fizemo-lo. Hoje urge mudar de atitude e assumirmos o protagonismo, retirando muito do que delegamos aos que vemos, não serem capazes de nos levarem às nossas utopias colectivas.

A defesa da pátria; elemento chave de união de uma nação, que se partilha no sacrifício, que se nivela no risco, que engendra camaradagem; obriga a repensar o actual paradigma do serviço militar obrigatório, que não reforça a unidade na diversidade; obriga a rever o recrutamento não mesclado, em termos de raça e extracto social, que leva à já antiga questão, de o dever ser obrigatoriedade de alguns muitos, e os benefícios serem direitos de outros poucos, com a sensação para cada momento, uns serem mais moçambicanos que outros. Calados vamos assistindo a tudo isso, sem aquilatarmos a dimensão das fissuras. Estamos a criar o fosso entre moçambicanos.


Por isso, nós os cidadãos deste país, principalmente os que não tem nada com ninguém, não são, nem de um, nem de outro, nem sequer daqueloutro, e nem, por isso, nos vamos importar jamais, com o, “não estás comigo, estás contra mim”. O que não queremos, é estar contra nós próprios! Porque estamos interessados na liberdade, desenvolvimento e segurança, vamos dizer não; não a guerra, não as intolerâncias de uns e de outros e posicionar da seguinte maneira: se houver uma guerra movida do exterior, vamos mobilizar os nossos filhos, irmãos e nós próprios, para defesa da pátria, que é nossa e de nenhum partido. Mas se houver uma guerra fraticida, nenhum filho nosso irá aliar-se a ninguém; que avancem os filhos, netos, sobrinhos deles ( mesmo que tenham de os mobilizar do exterior, onde têm bolsas de estudo) e eles próprios, os arrogantes, para as frentes de batalha, para eles próprios defenderem os seus interesses. Porque a guerra é deles e não nossa!! Nós queremos a paz. Nós queremos a paz!!


domingo, 14 de abril de 2013

Carta aberta ao Senhor Presidente do Concelho Municipal de Quelimane

Por: Amilcar Gil de Melo


Excelentíssimo Senhor Presidente do Concelho Municipal de Quelimane


Como cidadão moçambicano e como munícipe da cidade de Quelimane foi com tremendo desconto e raiva, que na madrugada de ontem, tomei conhecimento de um acto inqualificável a todos os títulos, que estava sendo perpetrado por alguém, provavelmente para levar a efeito alguma construção. Abater uma árvore, no mínimo centenária, não pode ser feita a qualquer pretexto, ainda que seja para construir. Um empreendimento dessa natureza só pode ser UM EMPREEENDIMENTO BOÇAL. E desses empreendedores não fazem falta nenhuma. Arvore, situada no espaço que antigamente tinha a Padaria Branquinho, por frente da loja do AGM- Gany, na rua do falecido velho Palha, precisamente aquela que vai dar ao cimitério.

O assassinato em curso


Porém esta árvore tem uma particularidade, posto que envolto dela tem registada uma mitologia. O que só por isso, deve merecer da parte das nossas autoridades uma atenção especial, porque património da nossa cultura. Aliás proponho-o, se não existe, lute para que aconteça, que dentro do desenvolvimento sustentável, tão propalado, figure uma norma municipal, que não permita abate de árvores sem prévia autorizaçao do Concelho Municipal, menos ainda quando árvores centenárias.

A arvore antes da barbaridade


Para estes assassinos ambientais devem no mínimo sofrer uma pena pesadíssima e adicionado a usurpação da área. Nem que para o efeito o Concelho Municipal os leve a barra do tribunal.

Vista panoramica da arvore


O que mais me dói, é que na semana ante-passada, fiz uma crónica, sobre esse assunto, cujo título é, Arquitectura de destronca, publicado no jornal Diário de Moçambique, e neste blogue. Tambem antes, porque vi a mesma barbaridade na cidade de Nampula, fiz uma foto com um texto, publicado no Bula Bula do Jornal Domingo, cujo título é, O assassinato do embondeiro. Pelo menos aqui e agora nao permitamos essa barbaridade imune.

Subscreve-se

Amilcar Gil de Melo