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domingo, 17 de fevereiro de 2019

O meu lamento tardio e cúmplice


Por: Lo-Chi



O que fiz do meu país?! Os direitos humanos prevalecem às obrigações humanas. O país que eu fiz, as crianças têm menos prerrogativa de beber um copo de leite comparativamente ao bêbado, cujo álcool, com incentivos fiscais, se dissemina a preço de banana, enquanto que a criança se priva no preço do seu subalimento.

O meu papel de educador, cómoda e indevidamente, outorguei, furtando-me do meu dever fundamental e básico, passando uma procuração de plenos poderes, às instituições cujo papel é complementar, mas mesmo esse, de uma incompetência assustadora. E na vez de mimar, virei permisso, e os valores e os limites, se confundiram com escravidão; e aboli-os. Aboli-os tão levianamente, que na vez de filhos criei monstros. O que fui fazer? A tal instituição a quem outorguei a educação, deseduca. Subcontratou a penitenciária que virou faculdade. Faculdade da malandragem, essa mais produtiva, na quantidade e qualidade. Em vã expectativa, surgiram as privadas, que não só transmutaram tunchagamoyos, como nível básico das penitenciárias. Estou pesaroso do meu país, mas fui eu que o fiz. A cada dia vejo alunos aos magotes, regressando das aulas, na vez de exibirem garbosamente civismo, portam-se à altura dos mais grosseiros arruaceiros, onde em palavrões, vão tendo conversas, que fazem o gáudio dessa manada, pastando e regurgitando mal-criação, tendo de sobremesa as meninas que indiferentes fazem da moléstia galanteio. Os professores esses então, dão-me o desabono de recordar, que algum dia exerci essa profissão.

O que eu fiz do meu país, fi-lo na passividade cómoda e cobarde, onde profissionais competentes, para terem vida decente, tem que se prostituir com a política. Política profícua de  parlamentares aldrabões submissos coniventes, ministros cadongueiros em boladas das mais descaradas. Vendem madeira a preço de lenha, assinam contratos com eles próprios. Projectam actividades com custos dos olhos do povo, saem bestialmente ricos, pedindo investimento, investem  lá fora. O país que eu fiz, desacredita a própria Constituição, onde a agricultura é o motor, mas sem combustível, nem acessórios, constrói pontes desnecessárias, quando o pouco que se produz, engasga-se no campo.

O que fiz do meu país. Um soba supostamente respeitado está envolto numa gravíssima suspeição de falta de pontaria na aplicação dos bens públicos. Altos dignatários do país, na vez de promoverem os empresários feitos, no sucesso do seu honesto esforço, cantam hossanas aos empresários de esquema e do submundo, com histórias por demais contadas e reconhecidas. O país que eu fiz, o ladrão tem mais direitos que o honesto trabalhador. O ministro virou arguido, o juiz é julgado, tribunais supremos não dominam a legislação, o ladrão persegue o polícia, o polícia insegura, a procuradoria umas vezes se esconde outras vezes procura-se, a assembleia deslegisla, o estado deixou de estar, ausente se fez. O país  que eu fiz é um estado de direito, um direito torto, empenado e opressor. Eu sonhei com um Estado de justiça e de amor, um Estado trabalhador e não parasita.

No país que fiz, permiti, que os senhores da guerra, contaminassem a sociedade, a tal ponto, que esta perdeu os valores queridos da nossa tradição moçambicana: solidariedade, respeito, humanismo, trabalho, valorização da mãe natureza. Os jovens adversários políticos, odeiam-se, de adversários alquimizaram-se inimigos, como os seus progenitores. Os senhores subverteram com a sua matriz financeira a tal jeito, que mesmo nos pontos supostamente de reserva moral, se esgotou e tudo se mercantilizou e virou um dumba nengue de tráfego de influência, de crime: infantil, humano. O país que eu fiz, as religiões combatem a tradição e cultura, a nossa essência; trazem o negócio do dízimo, sob o olhar impotente da ignorância de todos nós e dos senhores, adoram o deus que eles criaram, e não creem no Deus que criou o homem.

O país que eu fiz, quer ligar a África, quando ele próprio não se ligou. A estrada nacional numero 1, nunca foi, está sempre adiada. A agricultura que produz no mínimo, o máximo fica no campo, apropriada pelas estradas e pontecas, firmemente intransitáveis. O meu país não se abriu a si mesmo, e quer-se abrir ao mundo. O meu país ao avesso, a estrada para a praia, teve direito a uma mega ponte, inflacionada, e asfalto, para que não se ferissem os 4x4 da gangue. Pior que tudo, o meu país nunca se aceitou, rejeitando uma parte de si, aceita os outros e seus desvalores. Esse é o meu país, o país que eu fiz!


NA: Esse lamento não é meu, é nosso. Eu e tu, que te sentes defraudado. Por outro lado grato, as honrosas excepções, na esperança de que amanhã façam a diferença.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

É político e basta


por Lo-Chi


O Muaqueliua, um sujeito de estatura média a tender para o baixinho, tez adornada de jambalau, introspectivo, pouco metido a socialização e a brincadeiras do nosso tempo juvenil, arisco, parco em palavras. Foi meu colega de turma, na Escola Técnica, no curso comercial. Comigo convivia, quase no limite da tolerância, quando, fortuitamente, eu metia-me com ele, e era aí, que no seu sotaque de lomwé da alta Zambézia, me dizia quase a repreender, Não sei como aduras esses waides?, com um ódio mesclado com fel. Mas no fundo, era um sujeito bom, fora esse radicalismo, talvez determinado pela sua origem, marcada de sofrimento e carestia. Inteligente e aplicado nos seus deveres, e não poucas vezes voluntário para esclarecer dúvidas à turma, principalmente de Matemática e Calculo Económico, duas disciplinas, que eram o seu forte.

Depois de um longuíssimo período de separação, no qual jamais tivera notícias, eis que afortunadamente, num acaso, aparece-me o Muaqueliua, e como é comum nesses acasos, foi uma festa e tantos. Mas logo à seguir a efusividade, antes mesmo de recordarmos os factos antigos e de perguntarmos pelos colegas comuns, ele atira-me com a pergunta de chofre, És político?, com a maior das naturalidades, disse-lhe, que o que mais gostava, era estar distante desse departamento, porque não nascera talhado para essas coisas. Ele mais não disse sobre a questão; nem bem nem mal. Daí saiu o rolo de recordações, desfiadas com aquela característica comum, de rever o passado, com dados verdadeiros, outros ficcionados, coisas que o tempo acaba criando e modelando na memória. Depois disso, fomos falando do presente, onde acabou informando que havia chegado para ficar, transferido, e com intenção de por aqui se radicar. Trocamos números de celulares, endereço das casas, com uma data marcada, para a primeira refeição de confraternização. Noto no final do encontro, que ele se havia libertado do sotaque característico do lomwé.

Desse dia em diante, passamos a encontrar-nos com muita frequência, adaptada a nova circunstância de indivíduos com família. Porém, uma singularidade marcou os nossos convívios, posto que eu tinha outros amigos, que de quando em vez, nos encontravam, e eu fazia por apresentá-los. Quando adivinhava isso, a primeira coisa que me perguntava, era, Esse teu amigo é político?,  e consoante a resposta, ele tinha um comportamento, diferente. Se a resposta era negativa, ele era um homem afável, conversador, se positiva ou se na dúvida, ele tornava-se esquivo, arredio, fazia por não dar o nome, ou se fosse obrigado, mentia ostensivamente, até pensei, que sequelas daquele radicalismo dos tempos de escola que persistia nele. Acredito que, para evitar equívocos, acabou abrindo o jogo e disse-me de caras, Meu, dos teus brothers, os que forem políticos, por favor, não me apresentes, ou avisa-me com antecedência, que retiro-me da área, até que o terreno fique limpo. A partir desse momento, percebi claramente, que ele tinha uma profunda alergia aos políticos, e encontrei a lógica daquela sua pergunta, à queima-roupa, no primeiro dia do nosso reencontro. Em face disso, começamos uma discussão em torno do exagero, de um posicionamento completamente radicalizado, onde eu tentava demonstrá-lo, que os políticos maus eram, porque eram más pessoas, bem como havia indivíduos não metidos na politica e/ou em partidos, que eram pessoas péssimas. Ele, peremptório, rematou-me, como contra-argumentação, dizendo-me, Meu não estou a falar de excepções, mas de regras, ainda tentei contrapor, E como é que ficam as expções injustiçadas, achas que todos têm que pagar por alguns?, e ele veemente, Excepções são excepções como a própria palavra define, e eu neste caso de políticos, sigo escrupulosamente a regra, respirou um pouco olhou-me bem nos olhos e continuou, é tão fácil um miúdo de boas famílias, bem educado, estragar-se, metendo-se na política, quão difícil é encontrares um político honesto, coçou a nuca e continuou, o politico é mau, é aldrabão, é pernicioso, é contagioso, falava com um quê de raiva e ódio. Aproveitei a deixa, para recordar a máxima dos anos 75, no nosso tempo de escola e rematei-lhe, Todo mundo é político, porque mesmo quando dizes que és apolítico, estás a ser político. Ele muito rápida e causticamente, com um azedume de arrepiar, Mano isso é papo de político, que sabe que está na lama, e como não gosta de estar sozinho, tenta arrastar todo mundo, com essa filosofia de meia tigela. A discussão ficou por aí, continuamos, em outros assuntos, porém eu, internamente, estabelecendo um paralelismo, do radicalismo dele em relação aos colegas de raça branca, daquele então, e o seu ódio visceral aos políticos. Passaram-se alguns anos, e fora do que ele havia previsto, foi de novo transferido para uma outra cidade, e continuamos com o nosso contacto, trocando mensagens e alguns telefonemas, em datas ou assuntos, que assim requeriam. Estava tudo soterrado no tempo, quando se dá o caso da detenção, na África do Sul, do nosso ex-ministro das finanças e a suspeição envolta de grandes figuras no mesmo caso. É então, que fora das minhas contas, recebo, o telefona do meu amigo, sem cumprimentos sem nada, Alô, digo eu, Estás ver os políticos, qual deles é que tinhas na excepção? Esses não valem o dejecto que defecam, regista!, disse seco; e eu apanhado de supetão, autómato, retorqui, Exaltemos a pátria**, falei sem saber o que significava: se lhe estava pedir compreensão, se a mandá-lo à m.r.da, ou aos políticos!


** a frase da moda nos dias recentes em Moçambique, após as cerimonias de 3 de Fevereiro, dia dos heróis. Expressão que quer dizer tudo e nada, que serve essencialmente, quando a pergunta te toca, e tentas esquivar.

sábado, 26 de janeiro de 2019

O embaraço em que nos deixa os absurdos do nosso organismo


Por: Lo-Chi



Há vezes em que, um ou outro órgão do nosso corpo entende que deve, por instantes, ficar autónomo do cérebro, órgão por excelência de comando. Fazendo com que gestos involuntários, nos deixem completamente encabulados, em face de flagrantes inoportunos. Uma comichãozita no nariz e lá metemos o dedo indicador, na maior das canduras, numa espécie de estímulo reacção, e de repente, notas que alguém está olhando para ti, assistindo a tua limpeza de salão. Há uma espécie de rubor que atravessa o corpo. Pior ainda se em face de um vizinho impertinente, que maldosamente te questiona: “há baile hoje?”. Outras, tu concentrado, num trabalho que te consome o tempo, sem que deias por ele, e num nada, catrapus, um pum sonoro e desgovernado. Não estás sozinho, no escritório ou na sala de aulas, e todos olhares se convergem em ti. Nem palavras para te desculpares, encontras. Essas e outras. Eu tive uma namorada lindíssima, mas que se sentia terrivelmente incomodada e desventurada, porque, dizia, nos momentos mais imprevisíveis e embaraçantes, os seus intestinos emitiam uns arrulhos (semelhantes aos que acontecem quando estás com fome), e que os mais próximos a ela, ouviam com toda a certeza, não obstante o silêncio cúmplice, afiançava-me. E ela dizia-me isso, como se a maior desgraçada do mundo. Ainda que eu lhe dissesse, que não era motivo para se aborrecer, mas era uma situação que a indispunha sobremaneira.

Todos esses embaraços acabados de citar, que o nosso organismo algumas vezes nos traz, numa espécie de sacanagem, e os quais nos podem aborrecer e/ou criar algum mal-estar momentâneo, meus amigos, não se compara com um, que eu tive, há escassos dias. Imagine você, eu não, que vive na pele; eu na Beira, com intenção expressa de ficar uma semana, hospedo-me em casa de um amigo, o Furquia, casado, com a Adozinda, e com três filhos. Sou atribuído o quarto de hóspedes. No quarto dia, como nos outros, saí eu e o meu amigo, não almoçamos, pelo corre corre em que nos envolvemos, mas jantamos num restaurante. E em termos de beber foi o que normalmente consumimos, não mais que uma garrafa de vinho, e muita água, o que é normalíssimo em nós. Nesse dia para comer, optamos por frutos do mar. Resolvidos os nossos afazeres e encontros, regressamos à casa, com tempo ainda de ele assistir ao final do noticiário. Ainda conversamos um bocadinho e depois despedimo-nos com a promessa de pelas oito acordarmos, como forma de mais tardar as nove horas e trinta minutos, no máximo, estarmos na rua. Importa antes dizer, que sou um indivíduo, que não sonha, ou melhor dizendo, não se recorda dos sonhos que tem. Fui à cama, deitei-me, e por incrível que pareça, nessa noite, sonhei. Um sonho de uma nitidez impressionante, com a convicção de ser realidade. E as páginas tantas, sonhei a urinar. Já está a adivinhar. Pois é meu amigo, eu aos 40 anos a mijar-me (esse é o termo) na cama. Imagina-me, logo após tomar consciência do facto. Eu imaginei mil e uma coisas. Quis-me enterrado vivo ou morto. Quis que aquele vexame, apenas fosse uma ilusão ou sonho. Ensaiei o arrumar a cama para cobrir a vergonha. Mas o homem adulto exigiu de mim a honestidade, evitando essa atitude pusilânime. Chamei, num acto de desespero, o meu amigo, que veio e mostrei os sinais do crime. Primeiro sem entender, depois caindo na real, parte numa gargalhada, que à medida que soava, me fazia o homem mais desgraçado do mundo. Depois, vendo o meu ar constrangido, conteve o riso, olhou para mim e disse com ar de quem entendia a situação, e eu buscando arrimo nesse pronunciamento, Não te preocupes, que isso pode acontecer a qualquer criança. Sacana do gajo!, disse cá para mim, com uma vontade de o esganar. Fiz a minha mais longa higiene matinal, protelando o mais que pude, o momento de encontrar-me com a dona de casa, até que o meu amigo me chamou à realidade, posto que o nosso tempo já se esvaía.Sem remédio, fui ao encontro do vexame que era, encontrar-me com a esposa. Cabisbaixo, feito num oito, só pude titubear um pedido de desculpa, mal formulado, que a senhora de casa perguntou, Porquê?, tentando amenizar o ambiente, mas no fundo, só piorou, porque o brigou-me a especificar as razões.  Em dias não, tudo corre contra ti. Até as coisas boas. Imagina que diferentemente dos outros dias, todos os assuntos foram resolvidos a uma velocidade meteórica, de tal jeito, que ficamos com tempo mais do que suficiente, para almoçarmos em casa. E eu tentando convencer o Furquia, de que almoçássemos na rua, e ele peremptório decidiu, que o almoço seria em casa. Eu autómato, mais abúlico que resignado, nem contrapus. Chegados à casa, os cumprimentos da praxe, e quando vou ao quarto…as provas do crime, reavivando-me a desdita: a cama sem colchão, e quando vou à janela, o colchão secando ao sol. Foi bastante e suficiente, para que fora das previsões, logo depois do almoço eu anunciasse a minha partida, de regresso à minha cidade. Logo eu que sempre brinquei com os meus desaires. Todo mundo estupefacto, tentando demover-me da repentina decisão. Eu, estóico, mantive, sem apelo nem agravo. Meia hora depois, estava eu, na bomba, abastecendo o carro, já de regresso, ruminando esse tremendo absurdo, com a sensação, na altura, de ter ficado traumatizado. Problema maior não é o passado, é o futuro. Tenho imperativamente que voltar à Beira, dentro de um mês e meio. Vou ao hotel, ou vou hospedar-me a casa do Furquia, como sempre fiz? O princípio de fazer “cada dia um compartimento hermeticamente fechado”, não está a surtir efeito, já estou sofrendo o dilema do futuro. E esse contar-vos, meus senhores, é a forma que encontrei, para tentar expiar ou exorcismar o pecado. Mas por favor, não espalhem por aí! Conto com a vossa discrição.

PS:__
Um grande amigo quando soube da minha desdita, ligou-me. Eu convencido que teria apoio directo dele, mas contra a expectativa ele diz-me: “esse teu caso, se fosse comigo eu tirava de letra. Já o meu embaraço é um problema a serio, Ainda não sei quais os efeitos. Nota tu que a minha boca entendeu, e mal, que deveria abrir eu a dormir. Falei feito um sonâmbulo, pior que tudo é que não sei o que falei. “Pioríssimo”, isso para expressar a minha situação, é que a madame até agora que te falo, não fez nenhum comentário, não esboçou nenhuma reacção, o que significa que vem aí chumbo grosso, e não sei qual o tipo de arma e de que flanco irei ser atacado. Completamente a mercê”

domingo, 20 de janeiro de 2019

O futuro que me interessa

Por: Lo-Chi




Entrei na onda nacional, sentimento de satisfação, não por ver alguém preso, mas por sentir que o que todos nós passamos a saber (desde o relatório da Kroll, mas que alguns teimavam em fazer de conta que não) o roubo que sofremos de uns poucos, começava a ter uma espécie de justiça. Passado o momento de euforia, que fiz por encurtar o máximo possível, para não cair na tentação masoquista de sentir prazer com o sofrimento alheio, saí do presente e fui para o futuro com os olhos postos no passado, que fez este ignóbil presente armadilhado.

Não só me interessa que estes embustes não aconteçam jamais, seguindo um pouco a trilha do nosso hino, que jamais nenhum tirano nos volte a escravizar, mas para o efeito, microscopiar as causas, para evitar as consequências. Os efeitos, são, para os olhos que vêm, e agora, bem como para os catracegos, o aproveitamento descarado, dos servidores da rés pública. Em primeiríssimo lugar, temos que pensar o mais urgente possível, tocar na lei mãe (Constituição da República) como um imperativo nacional urgentíssimo, no que tange a possibilidade de separação efectiva dos poderes, dos constituintes do Estado; o executivo, o judicial e o legislativo. Sabido, e claro ficou, que aquele que tiver o primado, em relação a um outro, claríssimo que vai ter a tentação de nele se imiscuir. Ficou provado, e nota-se, que o judicial, timorato e valetudenário, sai deste imbróglio completamente chamuscado. E aprendamos, que temos que arranjar um meio de ninguém (órgão) nomear ninguém (órgão). Dar posse é uma coisa, nomear existem formas adoptadas em diversos países que são eficazes. Por outro lado, o próprio judicial, mesmo querendo fazer algo, (em situações por demais evidentes de enriquecimento ilícito, muitas vezes, o safardana passeando com jactância, para além das interferências) a legislação não ajuda. Por isso, preventivamente, a legislação deve criar facilidades de encurralar os que deiam sinais evidentes de enriquecimento sem causa justificada. O ónus da prova, deve ser irrefutavelmente do visado e não da autoridade que ficar a velar por tal, bem como as medidas preventivas, preconizadas e nunca efectivadas, se ponham em prática.

Nós (moçambicanos) temos que ser, antes de membros de um partido, cidadãos desta pátria, posto que a nação não é uma competição desportiva, onde tudo para o meu clube e outros que se danem. Que ninguém pense, que quando o seu partido faz porcarias, pode parecer que só prejudica a uns, mas como vimos, nós do partido nenhum (que somos a maioria) e os do A, B e C, ficamos todos afectados, pelos exageros tresloucados de uns poucos azougues de um único partido. Quando falo de nós cidadãos, também me quero referir à polícia e ao exército, que não se arregimentem em princípios partidários, como se ainda estivessem na idade da pedra, mas se norteiem pela legalidade.

Ps
Depois deste banho, no pretérito 29 de Dezembro, na alma sofrida, deste cidadão que se sente, não poucas vezes, enteado, nesta nossa casa chamada Moçambique, limpei-me com a toalha da razoabilidade reflexiva e após confecção desajeitada, coloquei, na minha parca mesa, esses snacks feitos de ideias que se pretendem construtivas, que quero partilhar convosco, ainda que não seja uma mesa lauta e suculenta. Estão servidos.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A academia da fraude ---- ou o olhar ao espelho que assusta

Por: Lo-Chi

Com este rombo que nos aconteceu, onde a nossa casa nacional (Moçambique), foi assaltada e deixaram-nos de tangas, fiquei meditando. Como foi possível, desfazerem as grades, ludibriarem todo o sistema de segurança, anularem os alarmes, roubarem, irem à vida, passearem a classe, sem darmos por nada, e até aplaudirmos e dispensarmos honrarias de salvadores da pátria. Talvez tenha começado, num percurso longo de aprendizado e aperfeiçoamento, sem termos dado por ela. E fiquei imaginando, o que poderia ter permitido essa agilidade toda.

Pensando, fui imaginando. Será que a pré teve o seu inicio no Banco de Solidariedade, onde sem legislação que normasse, o incauto e assustado trabalhador era obrigado a descontar o seu salário, já sofrido pelo 4/80, um valor que ia para uma conta, que ninguém sabia qual, nem quem a controlava. Agravo refreado, graças a resistência de uns poucos esclarecidos e incorrigivelmente teimosos, e porque havia o mínimo de honestidade e pudor, parou-se em face de uma obrigatoriedade ilegal, de um desconto voluntário à força.

Munidos de boa intenção, quiçá, a primária propriamente dita, devem a ter frequentado no BPD, quando inventa­­­­ram o C.C.A.D.R., onde em nome do desenvolvimento, se deu valores monetários em massa, para algumas boas famílias, as quais se eximiram de pagar e contribuíram para a falência técnica do banco. Completou-se o curso primário, suponho, com o Banco Comercial de Moçambique, complementando o curriculum de um curso elementar. Será? Perguntei-me.

É provavelmente nesta altura, que seleccionaram os melhores alunos da turma anterior, que se passaram para um curso básico ou secundário, onde começaram a trapacear, num latrocínio mais directo, ao bolso do pacato cidadão. É então que a escola frequentada foi dos madjermanes e dos madjonidjones. Preparando-se para passarem a uma fase de maior exigência, é que de permeio, a turma vai fazendo uns pequenos cursos de capacitação, aperfeiçoamento e reciclagem, aqui e acolá, nas urnas eleitorais; uns refreshments na agilidade do furto de votos, enchimento de urnas, falsificação de editais. Cursos dados por processos eleitorais. Coisas que pareciam de pequena monta, mas para aperfeiçoamento e adestramento, que lhes permitiu ter a equivalência do nível médio e o epíteto de máquina eleitoral.

Provavelmente, chegado a esse estágio de habilidades, era preciso mudar de nível. Um curso superior não lhes era desmerecido. Nesta fase, muitos alunos com qualificações recomendáveis e outros não, alunos de outras escolas e universidades candidataram-se, todos admitidos sob o critério da quantidade. Uns com certificado autêntico, outros com certificados falsos, aqueloutros sem certificado, mas com habilidades comprovadas, foram admitidos; todavia poucos seleccionados para a turma dos da linha da frente e de confiança. Estes, fazendo, em consequência lógica, o bacharelato, nas tramóias da estrutura de custo de combustíveis, onde uma taxa pirata, integrante, do seu destino, os cidadãos que devem, não sabem; e impávidos, os remetidos à ignorância, se remetem no silêncio cómodo da abcidadania.

Nesta fase, com a subida vertiginosa de conhecimentos adquiridos e as habilidades treinadas, na arte de levar sem pagar, ou de fazer de conta, sendo o peso da facturação, endossada aos bolsos do, não tanto incauto, porém amedrontado povo, feito cobaia, nas pesquisas e ensaios da universidade da trama. Progredindo assim, na escalada do saque, umas vezes encoberto em falsos concursos públicos, porque privados, na EDM, nos Aeroportos, na TDM, na Mcel, nas estradas pontes e escolas e outras infra-estruturas, umas vezes a título de salário de cargos inexistentes, como de PCAs adjuntos, bem como de Administradores não Executivos, outras vezes a título de patrocínio de viagens e quejandos, para uma determinada organização, sempre a mesma, despriorizando subsídios à agricultura e à cultura que merecem e contribuiriam para o nosso desenvolvimento comum. Concluída a licenciatura, imagino, impunha-se continuar, com o fito de fazer o mestrado. Contudo, para conferir maior fiabilidade, era preciso internacionalizar o processo de formação. É assim que no exterior, burlam o país nas compras dos Embraers e do Credilecs estrondosamente sobre facturados, para que não se confundisse com simples “boladas”. Chegados a esta fase de mestre, importava mostrar a ousadia de um universitário, mestre em destreza, convinha emparelhar com os doutores das ciências políticas, cujos conhecimentos se manifestam nos ecrãs da televisão, forma privilegiada de trazer à sociedade, as suas habilidades. Começa o saque, à luz do dia, de terras de quase toda costa da Zambézia em áreas de caça de material imponderavelmente leve, o invadir de mares para a pesca de espécies terráqueas de Cabo Delegado, o despudor do saque hélio-transportado no INSS, a tentativa de ficar com terrenos no grande Maputo, em áreas como actual cadeia central, a Facim, etc., etc., e para finalizar, o que começou como bandeira, Cahora Bassa é nossa, deles. Aqui importa referir, que eliminaram a dialéctica e cultivaram pequenos cursos de silenciamento hospitalar e de comunicação, um pouco por toda casa, no quintal, na varanda, no quarto, na sala.

Chegados a este ponto, apenas sobrava o verdadeiro doutoramento, PHD, feito não por módulos e exames no exterior, mas sim presencial e fora do país. Universidade escolhida: Credit Suisse. Tutor: Privinvest, especialidade: dívidas ocultas. Um tratado sobre roubo e calote, que só os experts a pudessem entender, para que não houvesse dúvidas da qualidade de formação dos quadros dessa turma. Mas porque conhecimento e boas práticas não ocupam espaço, hoje por hoje, fazem pequenos cursos de pós graduação; elaboram contratos com eles próprios, ensaiam doutrinas moralistas de amor a pátria, disseminam o perigo bacoco da ingerência, evocam cinicamente o medo do imperialismo. Parece-me, estou no terreno das suposições, todas elas alimentadas pelos nossos meios de comunicação, que lutam na adversidade da verdade.


Este foi o meu pensamento delirante, (tomara, quem não deliraria em face de uma fraude desta dimensão) que pode não estar de acordo com os factos reais, contundo, tentando a busca de razões e motivos, da nossa desdita permissividade aos gatunos, que foram ao erário público, e que empenharam o nosso e dos nossos, o futuro. Mas somos todos chamados a reflectir, mesmo delirando, para encontrarmos as razões e causas, de modo a evitar possíveis futuros desaires. E no fundo, bem no fundo, para que nos tempos vindouros não sejamos, todos nós, conscientes ou incautos, coniventes e/ou permissivos, enredados noutra trama, busquemos a cidadania, combatendo todos estes e outros sinais de ausência de honestidade, como parece que foi sendo admitido, porque não era comigo e não me atingia, para no fim compreendermos, que estes passos desonestos dirigidos a outros, conferiram as habilidades e teias de compromisso, que acabaram neste desaire nacional, que no final, nos atinge indiferentemente de, raça, filiação partidária, sexo, religião. Estou apenas com dúvidas, se independentemente da tribo. Mas resumindo, o logro mais por inoperância que por habilidade. 


sábado, 22 de dezembro de 2018

A vitrina da história universal reclamando -os heróis a exaltar

 Por: Lo-Chi



Quando no panteão das palavras os “exegetas” exaltam com jactância e cabalisticamente, alguns poucos heróis, do processo histórico de resistência pré ou proto colonial, e não só, o equívoco está não apenas no julgamento, errado ou intencional, como no resultado nefasto, que fazem da excelsa e suprema realidade comum, uma excepção diminuída e desbaratada. E se na verdade a regra constitui não excepção, lida a história de Moçambique, nos compêndios académicos, como ela se resume oficializada, para além dos espontâneos sinais estrídulos, empurra-nos equivocadamente para uma visão, muito além de reducionista, cobarde, dos moçambicanos, ou das gentes que hoje constituem o que é hoje Moçambique.

Esses sinais estrídulos, porém, vãmente silenciados, não só reclamam a nossa essência heroica e martirizada, como desprezam a redução de heroicidade limitada à meia dúzia de personagens, e outrossim vindicam outras leituras, outras fontes, afinal existentes, que (da maioria passiva, ou assim permite entender, aparece um parco herói), exibem-nos outras realidades bem diferentes. Vasculhando a literatura colonial versada sobre Moçambique, em especial, a parte que outrora chamavam-na de Zambézia, bem mais extensa que actualmente, fui encontrar nos livros de F. Gavicho de Lacerda, por exemplo e não apenas, indicações de reiterados movimentos de resistência aos invasores portugueses, como por exemplo, quando escarrapacha, no livro “Costumes e Lendas da Zambézia, no capítulo com o título “a Zambézia”, nas paginas 20 a 22, referindo-se a uma região designada de Massangano, onde reinava o Bonga, que comandava o seu potentado, que resistiu às diversas forças de Portugal, fazendo grandes vítimas, de entre as quais, em 1888, uma expedição de mais de 500 homens, que fora completamente desbaratada, e apenas sobreviveram 48 militares. Tendo esse resistente sido infringido uma derrota, só após várias tentativas resistidas em diversos combates, pelo Augusto Castilho. Desprezar estes factos e não os incorporar na nossa história escrita nos compêndios académicos das classes iniciais, para que os nossos conheçam a realidade integral dos factos e o nosso espírito de resistência generalizada à ocupação estrangeira, significa um insulto, para além do estralejar, à nossa condição de homens que amam sua terra. Do mesmo autor e no mesmo livro, podemos encontrar referência de resistências, na região do Barué. Num adverso repositório de informações, continuando a leitura circunstancial e enquadramento temporal e adequado, encontrou-se registos de actos de heroísmo dos nossos antepassados resistentes. Do mesmo autor, Francisco Gavicho de Lacerda, no livro, “Os Cafres, seus usos e costumes”, no capítulo “factos épicos e figuras de antanho”, nas páginas 131 a 132, é rico em referências de resistências dos naturais à ocupação, como as referentes à região do Chire, pelos Makololos, bem como dos rebeldes de Massangire em 1884, numa batalha em que puseram os portugueses em sentido, com tal sucesso, que fizeram refém o capitão Vitorino Queiroz, o qual foi amarrado a uma árvore, e em frente as suas rendidas tropas, aquele foi completamente esquartejado. Outra referência do mesmo livro e autor, em 1889, o tenente de armada Eduardo Valadim e o seu companheiro José Tomás de Almeida, foram derrotados em Mataca. Nesse capítulo, também nos dá a conhecer, que no dia 19 de Novembro de 1891, na aringa de Mitand, o tenente de armada João de Azevedo Coutinho, aquele a quem havia os colonialistas edificado uma estátua equestre, na cidade de Quelimane, este e mais 2.500 homens, munidos de armas modernas, encontraram uma forte resistência com tal magnitude, que acabou com o próprio João de Azevedo Coutinho ferido numa perna e a morte de Andrade, Barba Menezes, Carlos Paiva e mais de trezentos homens.

No livro, “Zambeziana, cenas da vida colonial”, um romance trazendo nele alguns factos históricos romanceados, assinado pelo autor Emílio San Bruno, nas páginas 26 a 27, faz referência a processos de resistência colonial por parte dos habitantes da província do Niassa, às investidas do coronel Paiva de Andrade na região de Muofuli, e outras na região entre os rios Panheme e Sanhete, comandadas pelo tenente Victor Cardoso. No mesmo livro na página 198, faz referência a resistência na província de Maputo, na aringa de Massangano em 1858, nas margens do rio Tembe, um capitão e 26 soldados brancos foram postos fora de combate. No que toca especificamente a região da Zambézia, faz referência, nas páginas 27 e 28, a forte resistência do régulo Melaure, representante dos Makololos (vide acima F. Gavicho de Lacerda) nas margens do rio Chire, que “teve a ousadia e arrogância” de rejeitar um pretenso presente do governo português, então representado pelo Serpa Pinto. Mais adiante nesse mesmo livro, nas páginas 73 e 74, também é descrito que no ano de 1892, o exército “dos maganjas” tomaram de assalto, aos portugueses, as regiões do, Licungo, Macuze, Nameduro e o Inhamacurra, onde após um período retomado pelos colonos portugueses, porém escorraçados novamente em 1895, e só retomada pelo Azevedo Coutinho, com um exército de mais de 3.000 homens. Há referência ainda que sucinta, mas evidente, no mesmo livro na página 103 e no seu rodapé, da resistência dos régulos descendentes do Macombé*, este descendente do antigo Imperador de Monomotapa, cuja presença intimidatória para os portugueses, se fazia sentir nas vias para o Barué, Chiôco, Chiranga, Cachomba e Zumbo.

Compulsados esses livros e lidos nas perspectivas adequadas, percebendo os circunstancialismos, deixam-nos a sensação benevolente, da nossa parte, de que a nossa “história” oficial, se séria, ficou, na preguiça ou comodidade, elidida, porque os tantos heróis foram relegados ao etecetera subentendido. E haver, a maior parte deste torrão pátrio, se notabilizado, e em resposta, como se de um crime se tratasse, esconderem essas páginas, rasgando-as sumariamente, ou travestificadamente desapresentadas, fica-se com imensa dificuldade de se imputar, ao malfadado gesto, de miopia. Posto que, lendo-se atenta e analiticamente outros historiadores que não os nossos, que nos deveriam exaltar, encontramos, naqueles que nos espezinharam, um reconhecimento ainda que subvertido, evidenciando o incompreensível resumo dos nossos registos em compêndios oficiais.

No mesmo livro, acabado de referir “Zambeziana, cenas da vida colonial”, evidencia, nas páginas 294 a 295, referências muitas, de resistências às autoridades portuguesas. Mas ficaremos pela insistência ao nome referido de Bonga. Para além da resistência militar, passando pela rebeldia franca, esta que foi por mais de cinquenta anos, desde Bereco chefe da dinastia dos Bongas, à família Cruz. Nesse trecho fica evidente, que o Bonga no seu prazo Massangano, trucidou mais de três expedições militares portuguesas, dando corpo e consistência ao anteriormente referido pelo F. Gavicho de Lacerda.

Continuando a ler a história, na contra-mão oficial, não apenas dos colonizadores, bem como daqueles que fazem a estória oficial, notamos que na vitrina da verdade, o escritor Aníbal Aleluia; insurgindo-se contra a selectividade propositada e de fins pouco ou nada servidores a Moçambique, no livro ”Os habitantes da memória” do Nelson Saute página 35; reclama para a verdade, repondo o facto de a resistência, que chamou de proto nacionalista, brotou no centro e norte, e nunca em Gaza, e que quanto a ele, só se justifica essa tremenda falta de objectividade, um pendor fortemente (este adverbio é meu) tribalista, e que na tentativa de repor os factos tinha em calha um romance de mais ou menos 300 páginas, onde falaria da resistência dos Cótis .

Estas leituras exprobram os nossos diligentes compêndios, que de uma forma fraudulenta, ou incompetente, deixaram em mim a sensação deletéria, com um fim último de ensaiar-se a doutrina de preeminência de uns em relação aos outros, o que só isso pode explicar o cantar-se, quanto baste, um herói, cuja grandeza, não pode em nome da verdade social, ofuscar outros da mesmíssima dimensão, ou talvez, de melhor quilate, com efeitos iguais ou maiores.

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*O livro de Adelino Timóteo “Os últimos dias de Uria Simango” na sua pagina 68, no rodapé, destaca Macombe e Barué como fortes baluartes da luta contra os portugueses, e faz referência que o Isaacman, no seu livro, “Moçambique: ensaios”,considera a Revolta de Barué como sendo uma das percursoras da luta de libertação nacional.



domingo, 13 de agosto de 2017

Uma ditadura fruto duma democracia


Por: Lo-Chi
Fotos do Google

Se procurarmos o conceito de ditadura, no que diz respeito aos sistemas governativos, para daí inferirmos no tema em questão, encontraremos esta definição sintética tirada do dicionário que diz; é um governo que o poder executivo absorve o poder legislativo ou o dispensa. Deste conceito, não obstante outras matérias consideradas na definição mais completa, pode depreender-se que aparentemente, fica o judicial fora da alçada. Outrossim, tirado da lógica filosófica do sistema, o governado em momento nenhum é consultado, nem directa nem indirectamente. Em consequência, este é impelido a executar o que se determinou, muitas vezes sem entender causas, motivos e afins.


O nascimento é uma ditadura, fruto de duas vontades democráticas. E todo o resto se desenvolve na imposição de vontades, num único sujeito. Se nos iludirmos, parece que os espermatezóides movimentam-se  por livre e espontânea vontade,  de tão céleres que saem.  Pura falsidade, ou crasso erro. A pergunta que se põe e com clara razoabilidade, é: alguém sai onde se sente bem? E pior ainda, se tivermos em linha de conta, aquilo que é hoje a vida terrena. Para tão pacatos cidadãos da colhoenêzia ou testicolândia, deiam o nome que vos aprover, só pode ser fruto de algum fenómeno que os impulsiona. Quanto à mim, saem fugidos de um uma tempestade de calor, aliado a um tremor dos testículos, daí o nome do micro-planeta, determinando aquele corre corre de salve-se quem poder, acelerados desalmadamente, sendo a competição tão acérrima, que algumas vezes, dois ou três aportam em simultâneo a mesma e única ilha disponível, o óvulo; e aí formam-se os gêmeos. Outras vezes, não sendo o mais rápido, porém apanhado na crista da onda do esperma, qual um tsunami invadindo praias, impele o cidadão espermatezóide para o óvulo, no qual cai desmaiado. Só isto explica, a chegada primeira ao óvulo de deficientes congénitos. Registe-se que todo este cataclismo acontece fruto de “duas vontades”, que não consultaram esses habitantes, em momento nenhum, expulsando-os das suas habitações, um dos quais aporta a suposta Ítaca da Odisséia de Homero, feito um Ulisses desventurado sem noção.


Chegado, convencido que em porto seguro, e de tão ofegante da correria, à princípio, não nota o quão quente é o local, o que com o andar dos tempos é-lhe imposto, para além de uma adaptação, as  alterações pertinentes. Metamorfoseia-se feto. Aí recebe uma nova moradia temporária, o útero, onde na impossibilidade de o fazer, é-se alimentado por um pipeline chamado cordão umbilical, no qual nem sequer tem direito ao cardápio, vai comendo ao belo prazer de um ser desconhecido, feito prisioneiro em cela disciplinar. E de quando em vez, vai recebendo umas visitas nocturnas, supõe, que lhe acena, numa hesitação caracterizada, num vai e vem típico de indecisão. E para além de indeciso é mal educado, e decerto sabem porquê, não me ponham aqui a especificar razões e motivos. Exponencialmente agigantado, o feto já não cabe no cubículo,  pelo que sujeita-se a uma nova expulsão, desta feita, para além de não democrática, oprimente. Vê-se obrigado a pirar por uma saida estreita, depois de muito sofrimento, e como se não bastasse é recebido aos tabefes. Destino maldito, pior sorte não lhe poderia caber.


Recebido e festejado, sem que o sujeito tenha participação ou vontade, vai sendo no transcurso do tempo, amestrado, de modo a que, se adeque comportamentalmente aos preceitos da dita sociedade, e com efeito, algumas coisas vai sabendo, e já na idade juvenil, quando vai acelerado e convencido que é dono do seu nariz, vem o paizinho que lhe prega esta, situando-lhe no sistema claramente: ”Querido filho, enquanto viver nesta casa você vai ter que obedecer as regras.” pressupõe-se menor de idade: etária, económica e financeira, “Aqui não governa a democracia”, do ponto de vista do oprimido, desnecessária essa advertência, já que conviveu permanentemente com a ditadura, e sabe disso, “ não fiz campanha eleitoral para ser seu pai”, tenho quase a certeza que o puto fica com a mesma vontade de perguntar, e eu para ser seu filho?, “ nesta casa, fará o que eu digo e não deve me questionar, porque tudo o que eu fizer, está motivado por amor”*. Mal sabe o pai que tudo que o filho quer, nesse instante, é ser pai, ou melhor livrar-se da ditadura, ou melhor ainda, ser democrático ditador.

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P.S.: Qualquer semelhança com a nossa cena politica é mera coincidência.

* texto tirado  numa das redes sociais e que é  atribuido não sei à quem, mas que me pareceu uma quase fotocópia ao que eu ouvi do meu pai, e que repeti exactamente ao meu filho. Ditaduras da educação, que estão provando ser mais eficientes e eficazes que alguns modelos actualmente propalados —na visão de  pai e não do narrador.