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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A academia da fraude ---- ou o olhar ao espelho que assusta

Por: Lo-Chi

Com este rombo que nos aconteceu, onde a nossa casa nacional (Moçambique), foi assaltada e deixaram-nos de tangas, fiquei meditando. Como foi possível, desfazerem as grades, ludibriarem todo o sistema de segurança, anularem os alarmes, roubarem, irem à vida, passearem a classe, sem darmos por nada, e até aplaudirmos e dispensarmos honrarias de salvadores da pátria. Talvez tenha começado, num percurso longo de aprendizado e aperfeiçoamento, sem termos dado por ela. E fiquei imaginando, o que poderia ter permitido essa agilidade toda.

Pensando, fui imaginando. Será que a pré teve o seu inicio no Banco de Solidariedade, onde sem legislação que normasse, o incauto e assustado trabalhador era obrigado a descontar o seu salário, já sofrido pelo 4/80, um valor que ia para uma conta, que ninguém sabia qual, nem quem a controlava. Agravo refreado, graças a resistência de uns poucos esclarecidos e incorrigivelmente teimosos, e porque havia o mínimo de honestidade e pudor, parou-se em face de uma obrigatoriedade ilegal, de um desconto voluntário à força.

Munidos de boa intenção, quiçá, a primária propriamente dita, devem a ter frequentado no BPD, quando inventa­­­­ram o C.C.A.D.R., onde em nome do desenvolvimento, se deu valores monetários em massa, para algumas boas famílias, as quais se eximiram de pagar e contribuíram para a falência técnica do banco. Completou-se o curso primário, suponho, com o Banco Comercial de Moçambique, complementando o curriculum de um curso elementar. Será? Perguntei-me.

É provavelmente nesta altura, que seleccionaram os melhores alunos da turma anterior, que se passaram para um curso básico ou secundário, onde começaram a trapacear, num latrocínio mais directo, ao bolso do pacato cidadão. É então que a escola frequentada foi dos madjermanes e dos madjonidjones. Preparando-se para passarem a uma fase de maior exigência, é que de permeio, a turma vai fazendo uns pequenos cursos de capacitação, aperfeiçoamento e reciclagem, aqui e acolá, nas urnas eleitorais; uns refreshments na agilidade do furto de votos, enchimento de urnas, falsificação de editais. Cursos dados por processos eleitorais. Coisas que pareciam de pequena monta, mas para aperfeiçoamento e adestramento, que lhes permitiu ter a equivalência do nível médio e o epíteto de máquina eleitoral.

Provavelmente, chegado a esse estágio de habilidades, era preciso mudar de nível. Um curso superior não lhes era desmerecido. Nesta fase, muitos alunos com qualificações recomendáveis e outros não, alunos de outras escolas e universidades candidataram-se, todos admitidos sob o critério da quantidade. Uns com certificado autêntico, outros com certificados falsos, aqueloutros sem certificado, mas com habilidades comprovadas, foram admitidos; todavia poucos seleccionados para a turma dos da linha da frente e de confiança. Estes, fazendo, em consequência lógica, o bacharelato, nas tramóias da estrutura de custo de combustíveis, onde uma taxa pirata, integrante, do seu destino, os cidadãos que devem, não sabem; e impávidos, os remetidos à ignorância, se remetem no silêncio cómodo da abcidadania.

Nesta fase, com a subida vertiginosa de conhecimentos adquiridos e as habilidades treinadas, na arte de levar sem pagar, ou de fazer de conta, sendo o peso da facturação, endossada aos bolsos do, não tanto incauto, porém amedrontado povo, feito cobaia, nas pesquisas e ensaios da universidade da trama. Progredindo assim, na escalada do saque, umas vezes encoberto em falsos concursos públicos, porque privados, na EDM, nos Aeroportos, na TDM, na Mcel, nas estradas pontes e escolas e outras infra-estruturas, umas vezes a título de salário de cargos inexistentes, como de PCAs adjuntos, bem como de Administradores não Executivos, outras vezes a título de patrocínio de viagens e quejandos, para uma determinada organização, sempre a mesma, despriorizando subsídios à agricultura e à cultura que merecem e contribuiriam para o nosso desenvolvimento comum. Concluída a licenciatura, imagino, impunha-se continuar, com o fito de fazer o mestrado. Contudo, para conferir maior fiabilidade, era preciso internacionalizar o processo de formação. É assim que no exterior, burlam o país nas compras dos Embraers e do Credilecs estrondosamente sobre facturados, para que não se confundisse com simples “boladas”. Chegados a esta fase de mestre, importava mostrar a ousadia de um universitário, mestre em destreza, convinha emparelhar com os doutores das ciências políticas, cujos conhecimentos se manifestam nos ecrãs da televisão, forma privilegiada de trazer à sociedade, as suas habilidades. Começa o saque, à luz do dia, de terras de quase toda costa da Zambézia em áreas de caça de material imponderavelmente leve, o invadir de mares para a pesca de espécies terráqueas de Cabo Delegado, o despudor do saque hélio-transportado no INSS, a tentativa de ficar com terrenos no grande Maputo, em áreas como actual cadeia central, a Facim, etc., etc., e para finalizar, o que começou como bandeira, Cahora Bassa é nossa, deles. Aqui importa referir, que eliminaram a dialéctica e cultivaram pequenos cursos de silenciamento hospitalar e de comunicação, um pouco por toda casa, no quintal, na varanda, no quarto, na sala.

Chegados a este ponto, apenas sobrava o verdadeiro doutoramento, PHD, feito não por módulos e exames no exterior, mas sim presencial e fora do país. Universidade escolhida: Credit Suisse. Tutor: Privinvest, especialidade: dívidas ocultas. Um tratado sobre roubo e calote, que só os experts a pudessem entender, para que não houvesse dúvidas da qualidade de formação dos quadros dessa turma. Mas porque conhecimento e boas práticas não ocupam espaço, hoje por hoje, fazem pequenos cursos de pós graduação; elaboram contratos com eles próprios, ensaiam doutrinas moralistas de amor a pátria, disseminam o perigo bacoco da ingerência, evocam cinicamente o medo do imperialismo. Parece-me, estou no terreno das suposições, todas elas alimentadas pelos nossos meios de comunicação, que lutam na adversidade da verdade.


Este foi o meu pensamento delirante, (tomara, quem não deliraria em face de uma fraude desta dimensão) que pode não estar de acordo com os factos reais, contundo, tentando a busca de razões e motivos, da nossa desdita permissividade aos gatunos, que foram ao erário público, e que empenharam o nosso e dos nossos, o futuro. Mas somos todos chamados a reflectir, mesmo delirando, para encontrarmos as razões e causas, de modo a evitar possíveis futuros desaires. E no fundo, bem no fundo, para que nos tempos vindouros não sejamos, todos nós, conscientes ou incautos, coniventes e/ou permissivos, enredados noutra trama, busquemos a cidadania, combatendo todos estes e outros sinais de ausência de honestidade, como parece que foi sendo admitido, porque não era comigo e não me atingia, para no fim compreendermos, que estes passos desonestos dirigidos a outros, conferiram as habilidades e teias de compromisso, que acabaram neste desaire nacional, que no final, nos atinge indiferentemente de, raça, filiação partidária, sexo, religião. Estou apenas com dúvidas, se independentemente da tribo. Mas resumindo, o logro mais por inoperância que por habilidade. 


sábado, 22 de dezembro de 2018

A vitrina da história universal reclamando -os heróis a exaltar

 Por: Lo-Chi



Quando no panteão das palavras os “exegetas” exaltam com jactância e cabalisticamente, alguns poucos heróis, do processo histórico de resistência pré ou proto colonial, e não só, o equívoco está não apenas no julgamento, errado ou intencional, como no resultado nefasto, que fazem da excelsa e suprema realidade comum, uma excepção diminuída e desbaratada. E se na verdade a regra constitui não excepção, lida a história de Moçambique, nos compêndios académicos, como ela se resume oficializada, para além dos espontâneos sinais estrídulos, empurra-nos equivocadamente para uma visão, muito além de reducionista, cobarde, dos moçambicanos, ou das gentes que hoje constituem o que é hoje Moçambique.

Esses sinais estrídulos, porém, vãmente silenciados, não só reclamam a nossa essência heroica e martirizada, como desprezam a redução de heroicidade limitada à meia dúzia de personagens, e outrossim vindicam outras leituras, outras fontes, afinal existentes, que (da maioria passiva, ou assim permite entender, aparece um parco herói), exibem-nos outras realidades bem diferentes. Vasculhando a literatura colonial versada sobre Moçambique, em especial, a parte que outrora chamavam-na de Zambézia, bem mais extensa que actualmente, fui encontrar nos livros de F. Gavicho de Lacerda, por exemplo e não apenas, indicações de reiterados movimentos de resistência aos invasores portugueses, como por exemplo, quando escarrapacha, no livro “Costumes e Lendas da Zambézia, no capítulo com o título “a Zambézia”, nas paginas 20 a 22, referindo-se a uma região designada de Massangano, onde reinava o Bonga, que comandava o seu potentado, que resistiu às diversas forças de Portugal, fazendo grandes vítimas, de entre as quais, em 1888, uma expedição de mais de 500 homens, que fora completamente desbaratada, e apenas sobreviveram 48 militares. Tendo esse resistente sido infringido uma derrota, só após várias tentativas resistidas em diversos combates, pelo Augusto Castilho. Desprezar estes factos e não os incorporar na nossa história escrita nos compêndios académicos das classes iniciais, para que os nossos conheçam a realidade integral dos factos e o nosso espírito de resistência generalizada à ocupação estrangeira, significa um insulto, para além do estralejar, à nossa condição de homens que amam sua terra. Do mesmo autor e no mesmo livro, podemos encontrar referência de resistências, na região do Barué. Num adverso repositório de informações, continuando a leitura circunstancial e enquadramento temporal e adequado, encontrou-se registos de actos de heroísmo dos nossos antepassados resistentes. Do mesmo autor, Francisco Gavicho de Lacerda, no livro, “Os Cafres, seus usos e costumes”, no capítulo “factos épicos e figuras de antanho”, nas páginas 131 a 132, é rico em referências de resistências dos naturais à ocupação, como as referentes à região do Chire, pelos Makololos, bem como dos rebeldes de Massangire em 1884, numa batalha em que puseram os portugueses em sentido, com tal sucesso, que fizeram refém o capitão Vitorino Queiroz, o qual foi amarrado a uma árvore, e em frente as suas rendidas tropas, aquele foi completamente esquartejado. Outra referência do mesmo livro e autor, em 1889, o tenente de armada Eduardo Valadim e o seu companheiro José Tomás de Almeida, foram derrotados em Mataca. Nesse capítulo, também nos dá a conhecer, que no dia 19 de Novembro de 1891, na aringa de Mitand, o tenente de armada João de Azevedo Coutinho, aquele a quem havia os colonialistas edificado uma estátua equestre, na cidade de Quelimane, este e mais 2.500 homens, munidos de armas modernas, encontraram uma forte resistência com tal magnitude, que acabou com o próprio João de Azevedo Coutinho ferido numa perna e a morte de Andrade, Barba Menezes, Carlos Paiva e mais de trezentos homens.

No livro, “Zambeziana, cenas da vida colonial”, um romance trazendo nele alguns factos históricos romanceados, assinado pelo autor Emílio San Bruno, nas páginas 26 a 27, faz referência a processos de resistência colonial por parte dos habitantes da província do Niassa, às investidas do coronel Paiva de Andrade na região de Muofuli, e outras na região entre os rios Panheme e Sanhete, comandadas pelo tenente Victor Cardoso. No mesmo livro na página 198, faz referência a resistência na província de Maputo, na aringa de Massangano em 1858, nas margens do rio Tembe, um capitão e 26 soldados brancos foram postos fora de combate. No que toca especificamente a região da Zambézia, faz referência, nas páginas 27 e 28, a forte resistência do régulo Melaure, representante dos Makololos (vide acima F. Gavicho de Lacerda) nas margens do rio Chire, que “teve a ousadia e arrogância” de rejeitar um pretenso presente do governo português, então representado pelo Serpa Pinto. Mais adiante nesse mesmo livro, nas páginas 73 e 74, também é descrito que no ano de 1892, o exército “dos maganjas” tomaram de assalto, aos portugueses, as regiões do, Licungo, Macuze, Nameduro e o Inhamacurra, onde após um período retomado pelos colonos portugueses, porém escorraçados novamente em 1895, e só retomada pelo Azevedo Coutinho, com um exército de mais de 3.000 homens. Há referência ainda que sucinta, mas evidente, no mesmo livro na página 103 e no seu rodapé, da resistência dos régulos descendentes do Macombé*, este descendente do antigo Imperador de Monomotapa, cuja presença intimidatória para os portugueses, se fazia sentir nas vias para o Barué, Chiôco, Chiranga, Cachomba e Zumbo.

Compulsados esses livros e lidos nas perspectivas adequadas, percebendo os circunstancialismos, deixam-nos a sensação benevolente, da nossa parte, de que a nossa “história” oficial, se séria, ficou, na preguiça ou comodidade, elidida, porque os tantos heróis foram relegados ao etecetera subentendido. E haver, a maior parte deste torrão pátrio, se notabilizado, e em resposta, como se de um crime se tratasse, esconderem essas páginas, rasgando-as sumariamente, ou travestificadamente desapresentadas, fica-se com imensa dificuldade de se imputar, ao malfadado gesto, de miopia. Posto que, lendo-se atenta e analiticamente outros historiadores que não os nossos, que nos deveriam exaltar, encontramos, naqueles que nos espezinharam, um reconhecimento ainda que subvertido, evidenciando o incompreensível resumo dos nossos registos em compêndios oficiais.

No mesmo livro, acabado de referir “Zambeziana, cenas da vida colonial”, evidencia, nas páginas 294 a 295, referências muitas, de resistências às autoridades portuguesas. Mas ficaremos pela insistência ao nome referido de Bonga. Para além da resistência militar, passando pela rebeldia franca, esta que foi por mais de cinquenta anos, desde Bereco chefe da dinastia dos Bongas, à família Cruz. Nesse trecho fica evidente, que o Bonga no seu prazo Massangano, trucidou mais de três expedições militares portuguesas, dando corpo e consistência ao anteriormente referido pelo F. Gavicho de Lacerda.

Continuando a ler a história, na contra-mão oficial, não apenas dos colonizadores, bem como daqueles que fazem a estória oficial, notamos que na vitrina da verdade, o escritor Aníbal Aleluia; insurgindo-se contra a selectividade propositada e de fins pouco ou nada servidores a Moçambique, no livro ”Os habitantes da memória” do Nelson Saute página 35; reclama para a verdade, repondo o facto de a resistência, que chamou de proto nacionalista, brotou no centro e norte, e nunca em Gaza, e que quanto a ele, só se justifica essa tremenda falta de objectividade, um pendor fortemente (este adverbio é meu) tribalista, e que na tentativa de repor os factos tinha em calha um romance de mais ou menos 300 páginas, onde falaria da resistência dos Cótis .

Estas leituras exprobram os nossos diligentes compêndios, que de uma forma fraudulenta, ou incompetente, deixaram em mim a sensação deletéria, com um fim último de ensaiar-se a doutrina de preeminência de uns em relação aos outros, o que só isso pode explicar o cantar-se, quanto baste, um herói, cuja grandeza, não pode em nome da verdade social, ofuscar outros da mesmíssima dimensão, ou talvez, de melhor quilate, com efeitos iguais ou maiores.

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*O livro de Adelino Timóteo “Os últimos dias de Uria Simango” na sua pagina 68, no rodapé, destaca Macombe e Barué como fortes baluartes da luta contra os portugueses, e faz referência que o Isaacman, no seu livro, “Moçambique: ensaios”,considera a Revolta de Barué como sendo uma das percursoras da luta de libertação nacional.



domingo, 13 de agosto de 2017

Uma ditadura fruto duma democracia


Por: Lo-Chi
Fotos do Google

Se procurarmos o conceito de ditadura, no que diz respeito aos sistemas governativos, para daí inferirmos no tema em questão, encontraremos esta definição sintética tirada do dicionário que diz; é um governo que o poder executivo absorve o poder legislativo ou o dispensa. Deste conceito, não obstante outras matérias consideradas na definição mais completa, pode depreender-se que aparentemente, fica o judicial fora da alçada. Outrossim, tirado da lógica filosófica do sistema, o governado em momento nenhum é consultado, nem directa nem indirectamente. Em consequência, este é impelido a executar o que se determinou, muitas vezes sem entender causas, motivos e afins.


O nascimento é uma ditadura, fruto de duas vontades democráticas. E todo o resto se desenvolve na imposição de vontades, num único sujeito. Se nos iludirmos, parece que os espermatezóides movimentam-se  por livre e espontânea vontade,  de tão céleres que saem.  Pura falsidade, ou crasso erro. A pergunta que se põe e com clara razoabilidade, é: alguém sai onde se sente bem? E pior ainda, se tivermos em linha de conta, aquilo que é hoje a vida terrena. Para tão pacatos cidadãos da colhoenêzia ou testicolândia, deiam o nome que vos aprover, só pode ser fruto de algum fenómeno que os impulsiona. Quanto à mim, saem fugidos de um uma tempestade de calor, aliado a um tremor dos testículos, daí o nome do micro-planeta, determinando aquele corre corre de salve-se quem poder, acelerados desalmadamente, sendo a competição tão acérrima, que algumas vezes, dois ou três aportam em simultâneo a mesma e única ilha disponível, o óvulo; e aí formam-se os gêmeos. Outras vezes, não sendo o mais rápido, porém apanhado na crista da onda do esperma, qual um tsunami invadindo praias, impele o cidadão espermatezóide para o óvulo, no qual cai desmaiado. Só isto explica, a chegada primeira ao óvulo de deficientes congénitos. Registe-se que todo este cataclismo acontece fruto de “duas vontades”, que não consultaram esses habitantes, em momento nenhum, expulsando-os das suas habitações, um dos quais aporta a suposta Ítaca da Odisséia de Homero, feito um Ulisses desventurado sem noção.


Chegado, convencido que em porto seguro, e de tão ofegante da correria, à princípio, não nota o quão quente é o local, o que com o andar dos tempos é-lhe imposto, para além de uma adaptação, as  alterações pertinentes. Metamorfoseia-se feto. Aí recebe uma nova moradia temporária, o útero, onde na impossibilidade de o fazer, é-se alimentado por um pipeline chamado cordão umbilical, no qual nem sequer tem direito ao cardápio, vai comendo ao belo prazer de um ser desconhecido, feito prisioneiro em cela disciplinar. E de quando em vez, vai recebendo umas visitas nocturnas, supõe, que lhe acena, numa hesitação caracterizada, num vai e vem típico de indecisão. E para além de indeciso é mal educado, e decerto sabem porquê, não me ponham aqui a especificar razões e motivos. Exponencialmente agigantado, o feto já não cabe no cubículo,  pelo que sujeita-se a uma nova expulsão, desta feita, para além de não democrática, oprimente. Vê-se obrigado a pirar por uma saida estreita, depois de muito sofrimento, e como se não bastasse é recebido aos tabefes. Destino maldito, pior sorte não lhe poderia caber.


Recebido e festejado, sem que o sujeito tenha participação ou vontade, vai sendo no transcurso do tempo, amestrado, de modo a que, se adeque comportamentalmente aos preceitos da dita sociedade, e com efeito, algumas coisas vai sabendo, e já na idade juvenil, quando vai acelerado e convencido que é dono do seu nariz, vem o paizinho que lhe prega esta, situando-lhe no sistema claramente: ”Querido filho, enquanto viver nesta casa você vai ter que obedecer as regras.” pressupõe-se menor de idade: etária, económica e financeira, “Aqui não governa a democracia”, do ponto de vista do oprimido, desnecessária essa advertência, já que conviveu permanentemente com a ditadura, e sabe disso, “ não fiz campanha eleitoral para ser seu pai”, tenho quase a certeza que o puto fica com a mesma vontade de perguntar, e eu para ser seu filho?, “ nesta casa, fará o que eu digo e não deve me questionar, porque tudo o que eu fizer, está motivado por amor*. Mal sabe o pai que tudo que o filho quer, nesse instante, é ser pai, ou melhor livrar-se da ditadura, ou melhor ainda, ser democrático ditador.

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P.S.: Qualquer semelhança com a nossa cena politica é mera coincidência.

* texto tirado  numa das redes sociais e que é  atribuido não sei à quem, mas que me pareceu uma quase fotocópia ao que eu ouvi do meu pai, e que repeti exactamente ao meu filho. Ditaduras da educação, que estão provando ser mais eficientes e eficazes que alguns modelos actualmente propalados —na visão de  pai e não do narrador.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Palavras de desencanto


Por Lo-Chi



Notícias há, que quando nos chegam, acabam fazendo coisas que atrapalham a lógica, tolhendo-nos a voz e embargando-nos o pensamento, de tão inverosímeis  se nos apresentam. “ Mano, aconteceu o pior” foi o intróito da notícia que me deram, para anunciar a morte do meu amigo Sidique, cuja graça, mais de acordo com o seu registo, Mohamed Sadique Abdul Satar Adamugy. Se a morte a todos nos confunde, esta sacudiu-me, porque apercebi-me daquilo que já há muito sabia: andamos aqui de passagem e partimos mais ou menos sem aviso prévio. Todos sabemos disso, mas fazemos por não entender a verdadeira dimensão.


As primeiras coisas que me ocorreram, foram; primeiro que tudo comunicar aos que, sabia eu, tínhamos uma comum relação, umas da vida académica, outras de proximidades geográficas que foram determinando encontros e convivências; posteriormente em virtude da impossibilidade objectiva de poder presenciar a sua última viagem física, traçar umas linhas e encarregar alguém que podesse em presença, lê-las para o meu amigo; e por fim, tentar reencontrá-lo ainda em vida, na sua página do facebook. A primeira ocorrência, não levei a efeito, pelo pragmático pensar, de que ele estaria lá, mas ausente, e a minha mensagem sendo à ele dirigida, vão se faria todo esforço comunicativo. A segunda, fiz com algum sucesso de comunicação. A terceira acção, fí-la no calar da noite, onde para meu espanto, percebi, que a morte lhe havia anunciado sua proximidade, lendo o post que ele fez, precisamente as 18,48hrs  do dia anterior ao sucedido: “Como o tempo passa e nós não nos apercebemos o quão é triste olhar para trás”. Foi o que ele escreveu, nos seus derradeiros momentos de convívio, na rede social, numa espécie de solilóquio, a menos de 24 horas do seu vôo para o infinito.

Por incrível que pareça, não me recordo do primeiro momento em que nos encontramos, ou melhor dizendo, que nos fizemos conhecidos. A tecida amizade fez-se tal, diluindo o tempo, ludibriando fronteiras, deixando em nós a convicção que sempre fôramos amigos. A nossa memória evocativa,  diversas vezes se situava solta, no restaurante Cristal, onde tivemos no balcão almoços de luxo ocasional, num período de verdadeira deficiência de provisão financeira. Falavas de Pemba como se tivesses vivido em Quelimane, eu falava do bairro Kansa como se houvesse jogado o polícia ladrão no Paquitiquite. Apresentaste-me a tua namorada, na sua ausência, com a qual te casaste e tiveste a tua prole, de tal jeito que, quando em Nampula nos reencontramos, eu já a conhecia, fazia tempos; e ela com a mesma naturalidade de velhos conhecidos, recebeu-me. Lembraste, quando fui puxar-te as orelhas, no periodo em que a paixão deixada na maravilhosa baía, perturbava o curso normal da aprendizagem, e tu no dilema; a obrigação de continuar e a vontade de apartar, para o arrimo em outros idílios. Venceu a prudência e a visão do futuro. Eu recordo-me! Recordo-me, quando tu solidário me trazias aquele leite da Protal, onde estagiavas Contabilidade por obrigação curricular, leite esse que supriu as minhas necessidades protéicas e outras, naqueles carenciados tempos primícios da nossa História. Lembro-me de ti solidário, no testemunho arriscado daquilo que chamaste o descer supersónico das escadas do prédio Macau, por conta de diabruras pouco recomendáveis, e tu lá em baixo a minha espera, para o que desse e viesse. Os provérbios e ditados que eu citava por conta de meu pai e tu registando indelevelmente na memória, e a espaços, ias refereciando à propósito. Dos Criadores, as nossas investidas de estudantes esfomeados às yogurdadas empanturrantes. Os nossos estudos colectivos em que percorríamos a madrugada com as sebentas as costas, calcorreando, linha a linha, os ditames professorais ou dos compêndios, desvirginando ignorâncias, arqueolojando técnicas. Marcou-me; a tua intensidade pueril, o riso autêntico; o chorar desavergonhado, quando algum precalço te atingia; o desabafar, quando desabavas nos confrontos da vida. Quantas vezes fizeste de mim o teu confessionário?! Não foram poucas as vezes que soubeste fragilmente dizer obrigado, por algum gesto, que por um ou outro motivo te tocasse, desmentindo categoricamente que aquela era a palavra mais difícil de dizer. Sobretudo, o que me marcou, e marcou-te também, disso pude dar-me conta, foram as nossas conversas, intermeiadas com os nossos risos peculiares, tu à meio tom, eu com a minha escandalosa gargalhada. No todo homem que hoje sou, tem um pouco de ti, aquele pouco fundamental e estruturante. Houve coisas que pretendíamos levar a efeito em conjunto, não as conseguimos realizar, não obstante o plano; mas a vida tem destas coisas. Tu, meu amigo, e amigos tenho-os poucos, foste tão inadvertidamente, que até me legaste um. Foste; contudo vou continuar a falar de ti, como sempre te esculpi: aquele amigo louco, com algumas lunares variações comportamentais, mas autêntico, avesso as luzes da ribalta, na sua um tanto alergia ao protagonismo, frontal, filosófico, quando a verve lhe vinha a espinha, temperamental é verdade, mas acima de tudo verdadeiro. Já tenho saudades tuas.

Que Deus te tenha, e o meu até lá, quando nos reencontrarmos, quiçá em alguma galáxia, para retomarmos as anedotas, e os nossos insólitos e inusitados da terra. O meu abraço ao Zeca, que certamente o encontrarás, e diz-lhe que guardo aquela foto última tirada no seu quintal em Nampula, onde revisitamos peripécias académicas e os nossos titubeantes passos laborais. Entrementes, fico por aqui a carpir a minha saudade, fazendo-me falta os nossos espaçados encontros, todavia importantes, para firmar a amizade que nutrimos sem alarde, com a consciência de que cada um de nós não era perfeito, e que esses defeitos solidificavam a relação que se queria imperfeita, porém verdadeira.


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PS:
A despedida é sempre triste. Mais triste quando sabemos à partida, que ela é definitiva. Somado a estes factores referenciados, punge a alma, quando se trata de um amigo, não obstante o conhecimento de que ninguém fica para semente, e sobretudo quando parte para a eternidade. Neste caso, um amigo com o qual se  privou momentos marcantes da juventudade académica, e com o qual se viveu momentos que marcaram. Dói, com tal intensidade, que necessita de catarse.


domingo, 28 de maio de 2017

Vela derretida

Por: Lo-Chi
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Sexta-feira a noite, sentados no sofá, acariando-se mutuamente, os ânimos da libido incomumente acelerados, quando de permeio, a Viagem abstrai-se de tudo, num vago movimento contínuo, absorta, continua acariciando o Umbila, seu esposo, que neste entretanto nota a ausência da esposa, por tão impessoal que se torna o afagar. Porém, deixa, e ela prossegue com os seus movimentos autómatos, por um largo tempo, até que cansado dessa ausência, o marido irrita-se, e chama-a para a realidade. Viagem, onde estás?, num sobressalto, como que queimada, ela retira a mão que acarciava pela força da inércia. Sabes, desculpa-se, estava aqui cismada com alguns ingredientes em falta e que tinha que comprar, por causa do almoço de domingo, sorri, entreabrindo uma nesga nos lábios, deixando os seus dentes alvos se mostrarem ligeiramente, pretendo fazer bacalhau à lagareiro, e não tenho suficiente azeite de oliveira, nem tenho na garrafeirra, vinho verde, sei que gostas com bacalhau. Este desculpar é feito com aquele olhar matreiro, que derrete, e derreteria  qualquer esposo. O efeito é de tal magnitude, que o Umbila corresponde à medida do efeito. Mor, podes levar o meu cartão e fazes as compras, diz o moço, não querendo perder a oportunidade de se refastelar com o apetecido pitéu, num opíparo repasto dominical. Não há que adiar por uns míseros meticais, pensa, e acrescenta seguidamente, Vê aí na minha pasta. E a Viagem, não se faz de rogada, antes que a porca torça o rabo e a oportunidade, ainda que por um instante, largo, de ficar com um cartão de crédito, com limite ao gosto, se vá para o ralo. A madame faz-se a pasta, numa busca desenfreada, e como sempre, quando a avidez é grande, acaba toldando a vista de tal maneira, que nem as coisas debaixo do nariz conseguimos vê-las. O mesmo está sucedendo a nossa amiga Viagem, que vai e volta aos diversos compartimentos, solicitando simultaneamente a suposta localização do famoso cartão. Tão inglória é a busca, que decide pelo óbvio, vazar a pasta virando-a de avesso por cima da mesa. No espólio, para além do cartão avidamente desejado, ressalta no mesmo um comprimido, com ar de antibiótico, de uma coloração castanha, que intriga a nossa madame, e como mulher que é, trata de questionar ao esposo, a natureza e destino do comprimido, já porque os antibióticos, na posse clandestina de algum conjuge, é logo motivo de suspeita. Umbila, que comprimido é este aqui, que parece um antibiótico?, o enterpelado olha, sofre um sobressalto, que com um esforço titânico, tenta camuflar, e para não dar nas vistas gaguejando a procura do nome a inventar, investe na meia verdade, Esse comprimido chama-se Furumbao, foi o médico que me receitou por causa da minha diabete, diz, e a madame intrigada pelo nome e coloração, questiona, Furo quê?, Furumbao, repete o Umbila, são uns comprimidos novos, que o meu médico deu-me como amostra, para comprar e passar a tomar um por dia, logo pela manhã, mas eu acabei esquecendo, respirou fundo e acrescentou com o objectivo de conferir maior veracidade, ele diz que são muito bons. Tu sempre o mesmo, na vez de cuidares da tua saude, esqueces-te, diz a Viagem, com o seu ar maternal. Pegando numa folha e caneta, tirada da pasta do esposo, depois de arrumá-la convenientemente, com o jeito que só as madames têm, dirigi-se ao mesmo e diz-lhe, Escreve aqui o nome desse medicamento, que vou eu mesma a farmácia comprá-lo, se esperar por ti nunca mais acontece. O Umbila ainda tentou balbuciar uma contraposição, mas olhando para a mulher, viu aquele sinal, bem seu conhecido, de determinação, que é o sobrolho arqueado, e não resistiu, e como uma criança, assentou o nome na folha, e suspirou, mais ou menos querendo significar: seja o que Deus quiser.



Sábado de manhã, afazeres de rotina, da casa e do esposo e filhos, e de seguida a Viagem sai para as compras aprazadas, com um sorriso nos lábios, já que portadora daquela coisinha, que põe toda esposa sorridente e bem disposta. Vai a mercearia, vai ao bottle store, e de seguida vai ao cabelereiro, onde tem a hora marcada, e ainda tem tempo de passar pela boutique, o cartão permite esses luxos; e não é sempre que tem a oportunidade de usufrutá-lo. Ja no fim de tudo, conforme o traçado, dirigi-se a farmácia, com o fito exclusivo de comprar o medicamento para o esposo. Confirma se o rabisco se encontra na carteira; esse nome esdrúxulo, não lembra nem ao diabo. Furumbao! Entra na farmácia, onde uma quantidade razoável de clientes era atendida. Sorriso nos lábios, faz um compasso de espera, até que uma das balconistas se liberta, dirigi-se a ela, mantendo o sorriso, solicita, Por favor, poderia arranjar-me estes comprimidos, acto contínuo retira o rabisco e lê em voz alta, Furumbao, para o meu marido, para o controlo da sua diabete. Sente no ar algo que a encomoda, vindo de alguns clientes mais próximos, risos contidos carregados de gozo, e um evidente sorriso indulgente da farmacêutica. Ao que ela, um tanto surpresa, indaga se havia dito algum disparate. A farmacêutica vendo a cara de surpresa, entendeu, pelos ossos do ofício, que havia ali algum equívoco, optando, como em todos casos que tais, numa explicação em surdina. Foi-lhe dizendo que os comprimidos não eram para combate nem controlo das diabetes, mas sim para resolver problemas de disfunção eretil. Ao que a Viagem passou de surpresa a indignação e desta a uma raiva enlouquecedora, Eu mato esse gajo, foi a única coisa que conseguiu dizer, de tão alto que falou, todo mundo a olhou. Tomando consciência, do incauto, ficou com um rubor de constrangimento e uma vontade de se enterrar. Saiu dali direitinha para casa, entrou, espumando pelos olhos, procurando o Umbila. Quando o viu, contou até três, e disse-lhe: Meu caro amigo, comprei os teus comprimidos para diabete, mas na vez de tomá-los de manhã e fora de casa, pelo menos compensa-me o vexame que passei, faz-me o favor de tomá-los, a noite na mansidão do teu lar, que já estou cansada de ter vela derretida por cá na hora da verdade.

sábado, 23 de julho de 2016

Ematunaram-me*

Por Lo-Chi



Veio parar-me as mãos, hoje, uma fotografia minha, em hardycopy, aquando do lançamento, no salão nobre do Concelho Municipal da cidade de Quelimane, de três livros (Não chora Carmen; Livro mulher; Nós, os de Macurungo) do escritor Adelino Timóteo, uma das vozes socialmente interventivas, no concernente ao actual processo sócio-político.

Naquele entretanto, estava eu e o protagonista da efeméride; quem eu não conhecia pessoalmente e vice-versa, porém leitor dos seus trabalhos jornalísticos; trocando impressões, com a gesticulação que me caracteriza quando a verve me toma de assalto, sobre a minha cidade adoptiva e dele por naturalidade, enquanto decorria o respectivo autógrafo, nos livros comprados. Falávamos de Macurungo, Macuti, Miquejo, Ponta Gêa, Matacuane e sem deixar de abordar, não queríamos de modo nenhum incorrer num sacrilêgio, a Manga e a Munhava.

E sem saber, estava atento o plástico Khumalemo, que zás…perpetuou o momento com o respectivo ónus, que involuntariamente incorri, um pouco no estilo Ematum, claro está.

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 *de Ematum, umas das empresas conhecidas no escândalo das dívidas particulares assumidas ilegalmente pelo estado moçambicano, cuja factura em última estância recai sem apelo nos bolsos dos incautos cidadãos.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Carnaval de Quelimane; seu processo evolutivo*

Por Lo-Chi


O carnaval de Quelimane, do meu ponto de vista, teve três fases distintas; duas do tempo colonial que se arrastou aos dois primeiros anos da independência, e a terceira do momento actual.

Tempo colonial

1-      Os carnavais de bairro eram caracterizados; para além daquilo que falei na minha crónica inserida neste blogue; essencialmnte pela malta mascarada, que em grupo, ia evoluindo em diversos bairros da cidade com algumas incursões na cidade de cimento, onde para além da música executada por eles próprios, em violas de lata e palmas de acompanhamento e quando possível um pequeno batuque improvisado, dançavam. Mas era bem no fundo um movimento pantomímico, tragicómimo, como que uma representação teatral em movimento, ou ambulante se quiseres, que na inocência ia retratando ou caricaturando a realidade da vida. Pena não ter nenhuma fotografia desse tempo e movimento.


2-      Carnavais de salão promovidos pelos clubes, concomitante aos dos bairros, como se pode ver pelas fotos abaixo, era uma espécie de baile, em que se misturavam diversos rítimos porém sendo predominantes as marchinhas, onde uma camada da sociedade, normalmente a colonial e/ou assimilada participava. As máscaras não eram a tónica, porém vestes mais ou menos garridas.


Vê se consegue ver a diferença com a foto a seguir




Aqui a mescigenação acontecendo, mas timida a participação da camada considerada marginal



1-      O verdadeiro carnaval aconteceu, depois de um processo evolutivo de trasformação, ja nos últimos decénios da era; misceginou-se quase por completo. Acontecia no pavilhao do Benfica, onde o samba e a marcha, música predominantemente de compositores brasileiros, eram a exclusividade e os participantes essenciais eram os chamados grupos foliões. Veja fotografias abaixo. Esses grupos eram formados por alunos das escolas secundárias ( Técnica e Liceu) e alguns bairros limítrofes da cidade de cimento, patrocinados por empresas que custeavam as entradas , alimentação e o traje, onde publicitavam-se.



Grupo Pintex – uma empresa que representava uma marca de tintas do mesmo nome




                                                                   Grupo 2M- uma marca de cerveja moçambicana



Pós Independência

Dois anos seguidos a independência, os carnavais seguiram comemorados a maneira antiga. Depois impôs-se uma paralização por opção política. Recuperou-se mais tarde, passada a ressaca emocional, própria do período, quando o município estava sob a batuta do Pio Matos; e o actual edil, Manuel de Araujo, deu continuidade. É um carnaval com participação popular, fundamentalmente com a juventude dos diversos bairros da cidade de Quelimane. Manteve-se o desfile de rua, no primeiro e último dias; sendo a verdadeira festa feita ao ar livre, numa avenida ou numa praça da cidade. Apesar de que o traço fundamental é a dança, mas há uma característica antiga que teima em resistir, ainda que timidamente: a pantomímia, que surge com um ou outro elemento dentro dos grupos, ou elemento isolado, motivo de gáudio da assistência. Em termos musicais, vai sofrendo uma evolução no que concerne ao reportório, posto que a música moçambicana se vai introduzindo, prevalecendo contudo com alguma evidência os compositores brasileiros.


Foto de Lo-Chi

Foto de Lo-Chi


Foto de Lo-Chi

Por quê Quelimane? Pergunta deveras difícil de responder. Tanto quanto sei, as outras cidades de Moçambique sempre fizeram carnavais, inclusive, numa das cidadess onde vivi muito tempo, o Carlos Beirão, do qual fiz referência numa crónica aqui publicada; o tal que provocou o movimento de uniformização de comemoração carnavalesca no Benfica; também foi um dos grandes impulsionadores do fenómeno na cidade da Beira. Há uma empresa que tem vindo a tentar fazer do carnaval de Maputo, uma coisa de fama internacional, movimentando empresas e capitais. A verdade porém, é que nenhuma delas consegue ter a dimensão como fenómeno, do carnaval de Quelimane.

Foto de Lo-Chi


Convém recordar, que para além do carnaval, há um outro evento anual, acontecendo em “Quelimane”, de uns tempos a esta parte, que já tem repercussão internacional; o festival do Zalala. Sem grandes promoções, ele vai acontecendo, movimentando mole humana impressionante, durante os três dias e noites que dura, com uma dinamica e animação sem rival. Mais impressionante fica, se contrapormos a essa realidade o facto de a Zambézia e consequentemente a sua cidade capital, estar entre os locais de maior incidência da pobreza, em Moçambique. A única resposta que encontro é que; faz parte do ADN deste povo.

                                                                              Festival de Zalala
Foto de Lo-Chi



Foto de Lo-Chi

*Texto feito a pedido, para substanciar um trabalho de final de curso