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domingo, 13 de agosto de 2017

Uma ditadura fruto duma democracia


Por: Lo-Chi
Fotos do Google

Se procurarmos o conceito de ditadura, no que diz respeito aos sistemas governativos, para daí inferirmos no tema em questão, encontraremos esta definição sintética tirada do dicionário que diz; é um governo que o poder executivo absorve o poder legislativo ou o dispensa. Deste conceito, não obstante outras matérias consideradas na definição mais completa, pode depreender-se que aparentemente, fica o judicial fora da alçada. Outrossim, tirado da lógica filosófica do sistema, o governado em momento nenhum é consultado, nem directa nem indirectamente. Em consequência, este é impelido a executar o que se determinou, muitas vezes sem entender causas, motivos e afins.


O nascimento é uma ditadura, fruto de duas vontades democráticas. E todo o resto se desenvolve na imposição de vontades, num único sujeito. Se nos iludirmos, parece que os espermatezóides movimentam-se  por livre e espontânea vontade,  de tão céleres que saem.  Pura falsidade, ou crasso erro. A pergunta que se põe e com clara razoabilidade, é: alguém sai onde se sente bem? E pior ainda, se tivermos em linha de conta, aquilo que é hoje a vida terrena. Para tão pacatos cidadãos da colhoenêzia ou testicolândia, deiam o nome que vos aprover, só pode ser fruto de algum fenómeno que os impulsiona. Quanto à mim, saem fugidos de um uma tempestade de calor, aliado a um tremor dos testículos, daí o nome do micro-planeta, determinando aquele corre corre de salve-se quem poder, acelerados desalmadamente, sendo a competição tão acérrima, que algumas vezes, dois ou três aportam em simultâneo a mesma e única ilha disponível, o óvulo; e aí formam-se os gêmeos. Outras vezes, não sendo o mais rápido, porém apanhado na crista da onda do esperma, qual um tsunami invadindo praias, impele o cidadão espermatezóide para o óvulo, no qual cai desmaiado. Só isto explica, a chegada primeira ao óvulo de deficientes congénitos. Registe-se que todo este cataclismo acontece fruto de “duas vontades”, que não consultaram esses habitantes, em momento nenhum, expulsando-os das suas habitações, um dos quais aporta a suposta Ítaca da Odisséia de Homero, feito um Ulisses desventurado sem noção.


Chegado, convencido que em porto seguro, e de tão ofegante da correria, à princípio, não nota o quão quente é o local, o que com o andar dos tempos é-lhe imposto, para além de uma adaptação, as  alterações pertinentes. Metamorfoseia-se feto. Aí recebe uma nova moradia temporária, o útero, onde na impossibilidade de o fazer, é-se alimentado por um pipeline chamado cordão umbilical, no qual nem sequer tem direito ao cardápio, vai comendo ao belo prazer de um ser desconhecido, feito prisioneiro em cela disciplinar. E de quando em vez, vai recebendo umas visitas nocturnas, supõe, que lhe acena, numa hesitação caracterizada, num vai e vem típico de indecisão. E para além de indeciso é mal educado, e decerto sabem porquê, não me ponham aqui a especificar razões e motivos. Exponencialmente agigantado, o feto já não cabe no cubículo,  pelo que sujeita-se a uma nova expulsão, desta feita, para além de não democrática, oprimente. Vê-se obrigado a pirar por uma saida estreita, depois de muito sofrimento, e como se não bastasse é recebido aos tabefes. Destino maldito, pior sorte não lhe poderia caber.


Recebido e festejado, sem que o sujeito tenha participação ou vontade, vai sendo no transcurso do tempo, amestrado, de modo a que, se adeque comportamentalmente aos preceitos da dita sociedade, e com efeito, algumas coisas vai sabendo, e já na idade juvenil, quando vai acelerado e convencido que é dono do seu nariz, vem o paizinho que lhe prega esta, situando-lhe no sistema claramente: ”Querido filho, enquanto viver nesta casa você vai ter que obedecer as regras.” pressupõe-se menor de idade: etária, económica e financeira, “Aqui não governa a democracia”, do ponto de vista do oprimido, desnecessária essa advertência, já que conviveu permanentemente com a ditadura, e sabe disso, “ não fiz campanha eleitoral para ser seu pai”, tenho quase a certeza que o puto fica com a mesma vontade de perguntar, e eu para ser seu filho?, “ nesta casa, fará o que eu digo e não deve me questionar, porque tudo o que eu fizer, está motivado por amor*. Mal sabe o pai que tudo que o filho quer, nesse instante, é ser pai, ou melhor livrar-se da ditadura, ou melhor ainda, ser democrático ditador.

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P.S.: Qualquer semelhança com a nossa cena politica é mera coincidência.

* texto tirado  numa das redes sociais e que é  atribuido não sei à quem, mas que me pareceu uma quase fotocópia ao que eu ouvi do meu pai, e que repeti exactamente ao meu filho. Ditaduras da educação, que estão provando ser mais eficientes e eficazes que alguns modelos actualmente propalados —na visão de  pai e não do narrador.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Palavras de desencanto


Por Lo-Chi



Notícias há, que quando nos chegam, acabam fazendo coisas que atrapalham a lógica, tolhendo-nos a voz e embargando-nos o pensamento, de tão inverosímeis  se nos apresentam. “ Mano, aconteceu o pior” foi o intróito da notícia que me deram, para anunciar a morte do meu amigo Sidique, cuja graça, mais de acordo com o seu registo, Mohamed Sadique Abdul Satar Adamugy. Se a morte a todos nos confunde, esta sacudiu-me, porque apercebi-me daquilo que já há muito sabia: andamos aqui de passagem e partimos mais ou menos sem aviso prévio. Todos sabemos disso, mas fazemos por não entender a verdadeira dimensão.


As primeiras coisas que me ocorreram, foram; primeiro que tudo comunicar aos que, sabia eu, tínhamos uma comum relação, umas da vida académica, outras de proximidades geográficas que foram determinando encontros e convivências; posteriormente em virtude da impossibilidade objectiva de poder presenciar a sua última viagem física, traçar umas linhas e encarregar alguém que podesse em presença, lê-las para o meu amigo; e por fim, tentar reencontrá-lo ainda em vida, na sua página do facebook. A primeira ocorrência, não levei a efeito, pelo pragmático pensar, de que ele estaria lá, mas ausente, e a minha mensagem sendo à ele dirigida, vão se faria todo esforço comunicativo. A segunda, fiz com algum sucesso de comunicação. A terceira acção, fí-la no calar da noite, onde para meu espanto, percebi, que a morte lhe havia anunciado sua proximidade, lendo o post que ele fez, precisamente as 18,48hrs  do dia anterior ao sucedido: “Como o tempo passa e nós não nos apercebemos o quão é triste olhar para trás”. Foi o que ele escreveu, nos seus derradeiros momentos de convívio, na rede social, numa espécie de solilóquio, a menos de 24 horas do seu vôo para o infinito.

Por incrível que pareça, não me recordo do primeiro momento em que nos encontramos, ou melhor dizendo, que nos fizemos conhecidos. A tecida amizade fez-se tal, diluindo o tempo, ludibriando fronteiras, deixando em nós a convicção que sempre fôramos amigos. A nossa memória evocativa,  diversas vezes se situava solta, no restaurante Cristal, onde tivemos no balcão almoços de luxo ocasional, num período de verdadeira deficiência de provisão financeira. Falavas de Pemba como se tivesses vivido em Quelimane, eu falava do bairro Kansa como se houvesse jogado o polícia ladrão no Paquitiquite. Apresentaste-me a tua namorada, na sua ausência, com a qual te casaste e tiveste a tua prole, de tal jeito que, quando em Nampula nos reencontramos, eu já a conhecia, fazia tempos; e ela com a mesma naturalidade de velhos conhecidos, recebeu-me. Lembraste, quando fui puxar-te as orelhas, no periodo em que a paixão deixada na maravilhosa baía, perturbava o curso normal da aprendizagem, e tu no dilema; a obrigação de continuar e a vontade de apartar, para o arrimo em outros idílios. Venceu a prudência e a visão do futuro. Eu recordo-me! Recordo-me, quando tu solidário me trazias aquele leite da Protal, onde estagiavas Contabilidade por obrigação curricular, leite esse que supriu as minhas necessidades protéicas e outras, naqueles carenciados tempos primícios da nossa História. Lembro-me de ti solidário, no testemunho arriscado daquilo que chamaste o descer supersónico das escadas do prédio Macau, por conta de diabruras pouco recomendáveis, e tu lá em baixo a minha espera, para o que desse e viesse. Os provérbios e ditados que eu citava por conta de meu pai e tu registando indelevelmente na memória, e a espaços, ias refereciando à propósito. Dos Criadores, as nossas investidas de estudantes esfomeados às yogurdadas empanturrantes. Os nossos estudos colectivos em que percorríamos a madrugada com as sebentas as costas, calcorreando, linha a linha, os ditames professorais ou dos compêndios, desvirginando ignorâncias, arqueolojando técnicas. Marcou-me; a tua intensidade pueril, o riso autêntico; o chorar desavergonhado, quando algum precalço te atingia; o desabafar, quando desabavas nos confrontos da vida. Quantas vezes fizeste de mim o teu confessionário?! Não foram poucas as vezes que soubeste fragilmente dizer obrigado, por algum gesto, que por um ou outro motivo te tocasse, desmentindo categoricamente que aquela era a palavra mais difícil de dizer. Sobretudo, o que me marcou, e marcou-te também, disso pude dar-me conta, foram as nossas conversas, intermeiadas com os nossos risos peculiares, tu à meio tom, eu com a minha escandalosa gargalhada. No todo homem que hoje sou, tem um pouco de ti, aquele pouco fundamental e estruturante. Houve coisas que pretendíamos levar a efeito em conjunto, não as conseguimos realizar, não obstante o plano; mas a vida tem destas coisas. Tu, meu amigo, e amigos tenho-os poucos, foste tão inadvertidamente, que até me legaste um. Foste; contudo vou continuar a falar de ti, como sempre te esculpi: aquele amigo louco, com algumas lunares variações comportamentais, mas autêntico, avesso as luzes da ribalta, na sua um tanto alergia ao protagonismo, frontal, filosófico, quando a verve lhe vinha a espinha, temperamental é verdade, mas acima de tudo verdadeiro. Já tenho saudades tuas.

Que Deus te tenha, e o meu até lá, quando nos reencontrarmos, quiçá em alguma galáxia, para retomarmos as anedotas, e os nossos insólitos e inusitados da terra. O meu abraço ao Zeca, que certamente o encontrarás, e diz-lhe que guardo aquela foto última tirada no seu quintal em Nampula, onde revisitamos peripécias académicas e os nossos titubeantes passos laborais. Entrementes, fico por aqui a carpir a minha saudade, fazendo-me falta os nossos espaçados encontros, todavia importantes, para firmar a amizade que nutrimos sem alarde, com a consciência de que cada um de nós não era perfeito, e que esses defeitos solidificavam a relação que se queria imperfeita, porém verdadeira.


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PS:
A despedida é sempre triste. Mais triste quando sabemos à partida, que ela é definitiva. Somado a estes factores referenciados, punge a alma, quando se trata de um amigo, não obstante o conhecimento de que ninguém fica para semente, e sobretudo quando parte para a eternidade. Neste caso, um amigo com o qual se  privou momentos marcantes da juventudade académica, e com o qual se viveu momentos que marcaram. Dói, com tal intensidade, que necessita de catarse.


domingo, 28 de maio de 2017

Vela derretida

Por: Lo-Chi
Fotos do Google

Sexta-feira a noite, sentados no sofá, acariando-se mutuamente, os ânimos da libido incomumente acelerados, quando de permeio, a Viagem abstrai-se de tudo, num vago movimento contínuo, absorta, continua acariciando o Umbila, seu esposo, que neste entretanto nota a ausência da esposa, por tão impessoal que se torna o afagar. Porém, deixa, e ela prossegue com os seus movimentos autómatos, por um largo tempo, até que cansado dessa ausência, o marido irrita-se, e chama-a para a realidade. Viagem, onde estás?, num sobressalto, como que queimada, ela retira a mão que acarciava pela força da inércia. Sabes, desculpa-se, estava aqui cismada com alguns ingredientes em falta e que tinha que comprar, por causa do almoço de domingo, sorri, entreabrindo uma nesga nos lábios, deixando os seus dentes alvos se mostrarem ligeiramente, pretendo fazer bacalhau à lagareiro, e não tenho suficiente azeite de oliveira, nem tenho na garrafeirra, vinho verde, sei que gostas com bacalhau. Este desculpar é feito com aquele olhar matreiro, que derrete, e derreteria  qualquer esposo. O efeito é de tal magnitude, que o Umbila corresponde à medida do efeito. Mor, podes levar o meu cartão e fazes as compras, diz o moço, não querendo perder a oportunidade de se refastelar com o apetecido pitéu, num opíparo repasto dominical. Não há que adiar por uns míseros meticais, pensa, e acrescenta seguidamente, Vê aí na minha pasta. E a Viagem, não se faz de rogada, antes que a porca torça o rabo e a oportunidade, ainda que por um instante, largo, de ficar com um cartão de crédito, com limite ao gosto, se vá para o ralo. A madame faz-se a pasta, numa busca desenfreada, e como sempre, quando a avidez é grande, acaba toldando a vista de tal maneira, que nem as coisas debaixo do nariz conseguimos vê-las. O mesmo está sucedendo a nossa amiga Viagem, que vai e volta aos diversos compartimentos, solicitando simultaneamente a suposta localização do famoso cartão. Tão inglória é a busca, que decide pelo óbvio, vazar a pasta virando-a de avesso por cima da mesa. No espólio, para além do cartão avidamente desejado, ressalta no mesmo um comprimido, com ar de antibiótico, de uma coloração castanha, que intriga a nossa madame, e como mulher que é, trata de questionar ao esposo, a natureza e destino do comprimido, já porque os antibióticos, na posse clandestina de algum conjuge, é logo motivo de suspeita. Umbila, que comprimido é este aqui, que parece um antibiótico?, o enterpelado olha, sofre um sobressalto, que com um esforço titânico, tenta camuflar, e para não dar nas vistas gaguejando a procura do nome a inventar, investe na meia verdade, Esse comprimido chama-se Furumbao, foi o médico que me receitou por causa da minha diabete, diz, e a madame intrigada pelo nome e coloração, questiona, Furo quê?, Furumbao, repete o Umbila, são uns comprimidos novos, que o meu médico deu-me como amostra, para comprar e passar a tomar um por dia, logo pela manhã, mas eu acabei esquecendo, respirou fundo e acrescentou com o objectivo de conferir maior veracidade, ele diz que são muito bons. Tu sempre o mesmo, na vez de cuidares da tua saude, esqueces-te, diz a Viagem, com o seu ar maternal. Pegando numa folha e caneta, tirada da pasta do esposo, depois de arrumá-la convenientemente, com o jeito que só as madames têm, dirigi-se ao mesmo e diz-lhe, Escreve aqui o nome desse medicamento, que vou eu mesma a farmácia comprá-lo, se esperar por ti nunca mais acontece. O Umbila ainda tentou balbuciar uma contraposição, mas olhando para a mulher, viu aquele sinal, bem seu conhecido, de determinação, que é o sobrolho arqueado, e não resistiu, e como uma criança, assentou o nome na folha, e suspirou, mais ou menos querendo significar: seja o que Deus quiser.



Sábado de manhã, afazeres de rotina, da casa e do esposo e filhos, e de seguida a Viagem sai para as compras aprazadas, com um sorriso nos lábios, já que portadora daquela coisinha, que põe toda esposa sorridente e bem disposta. Vai a mercearia, vai ao bottle store, e de seguida vai ao cabelereiro, onde tem a hora marcada, e ainda tem tempo de passar pela boutique, o cartão permite esses luxos; e não é sempre que tem a oportunidade de usufrutá-lo. Ja no fim de tudo, conforme o traçado, dirigi-se a farmácia, com o fito exclusivo de comprar o medicamento para o esposo. Confirma se o rabisco se encontra na carteira; esse nome esdrúxulo, não lembra nem ao diabo. Furumbao! Entra na farmácia, onde uma quantidade razoável de clientes era atendida. Sorriso nos lábios, faz um compasso de espera, até que uma das balconistas se liberta, dirigi-se a ela, mantendo o sorriso, solicita, Por favor, poderia arranjar-me estes comprimidos, acto contínuo retira o rabisco e lê em voz alta, Furumbao, para o meu marido, para o controlo da sua diabete. Sente no ar algo que a encomoda, vindo de alguns clientes mais próximos, risos contidos carregados de gozo, e um evidente sorriso indulgente da farmacêutica. Ao que ela, um tanto surpresa, indaga se havia dito algum disparate. A farmacêutica vendo a cara de surpresa, entendeu, pelos ossos do ofício, que havia ali algum equívoco, optando, como em todos casos que tais, numa explicação em surdina. Foi-lhe dizendo que os comprimidos não eram para combate nem controlo das diabetes, mas sim para resolver problemas de disfunção eretil. Ao que a Viagem passou de surpresa a indignação e desta a uma raiva enlouquecedora, Eu mato esse gajo, foi a única coisa que conseguiu dizer, de tão alto que falou, todo mundo a olhou. Tomando consciência, do incauto, ficou com um rubor de constrangimento e uma vontade de se enterrar. Saiu dali direitinha para casa, entrou, espumando pelos olhos, procurando o Umbila. Quando o viu, contou até três, e disse-lhe: Meu caro amigo, comprei os teus comprimidos para diabete, mas na vez de tomá-los de manhã e fora de casa, pelo menos compensa-me o vexame que passei, faz-me o favor de tomá-los, a noite na mansidão do teu lar, que já estou cansada de ter vela derretida por cá na hora da verdade.

sábado, 23 de julho de 2016

Ematunaram-me*

Por Lo-Chi



Veio parar-me as mãos, hoje, uma fotografia minha, em hardycopy, aquando do lançamento, no salão nobre do Concelho Municipal da cidade de Quelimane, de três livros (Não chora Carmen; Livro mulher; Nós, os de Macurungo) do escritor Adelino Timóteo, uma das vozes socialmente interventivas, no concernente ao actual processo sócio-político.

Naquele entretanto, estava eu e o protagonista da efeméride; quem eu não conhecia pessoalmente e vice-versa, porém leitor dos seus trabalhos jornalísticos; trocando impressões, com a gesticulação que me caracteriza quando a verve me toma de assalto, sobre a minha cidade adoptiva e dele por naturalidade, enquanto decorria o respectivo autógrafo, nos livros comprados. Falávamos de Macurungo, Macuti, Miquejo, Ponta Gêa, Matacuane e sem deixar de abordar, não queríamos de modo nenhum incorrer num sacrilêgio, a Manga e a Munhava.

E sem saber, estava atento o plástico Khumalemo, que zás…perpetuou o momento com o respectivo ónus, que involuntariamente incorri, um pouco no estilo Ematum, claro está.

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 *de Ematum, umas das empresas conhecidas no escândalo das dívidas particulares assumidas ilegalmente pelo estado moçambicano, cuja factura em última estância recai sem apelo nos bolsos dos incautos cidadãos.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Carnaval de Quelimane; seu processo evolutivo*

Por Lo-Chi


O carnaval de Quelimane, do meu ponto de vista, teve três fases distintas; duas do tempo colonial que se arrastou aos dois primeiros anos da independência, e a terceira do momento actual.

Tempo colonial

1-      Os carnavais de bairro eram caracterizados; para além daquilo que falei na minha crónica inserida neste blogue; essencialmnte pela malta mascarada, que em grupo, ia evoluindo em diversos bairros da cidade com algumas incursões na cidade de cimento, onde para além da música executada por eles próprios, em violas de lata e palmas de acompanhamento e quando possível um pequeno batuque improvisado, dançavam. Mas era bem no fundo um movimento pantomímico, tragicómimo, como que uma representação teatral em movimento, ou ambulante se quiseres, que na inocência ia retratando ou caricaturando a realidade da vida. Pena não ter nenhuma fotografia desse tempo e movimento.


2-      Carnavais de salão promovidos pelos clubes, concomitante aos dos bairros, como se pode ver pelas fotos abaixo, era uma espécie de baile, em que se misturavam diversos rítimos porém sendo predominantes as marchinhas, onde uma camada da sociedade, normalmente a colonial e/ou assimilada participava. As máscaras não eram a tónica, porém vestes mais ou menos garridas.


Vê se consegue ver a diferença com a foto a seguir




Aqui a mescigenação acontecendo, mas timida a participação da camada considerada marginal



1-      O verdadeiro carnaval aconteceu, depois de um processo evolutivo de trasformação, ja nos últimos decénios da era; misceginou-se quase por completo. Acontecia no pavilhao do Benfica, onde o samba e a marcha, música predominantemente de compositores brasileiros, eram a exclusividade e os participantes essenciais eram os chamados grupos foliões. Veja fotografias abaixo. Esses grupos eram formados por alunos das escolas secundárias ( Técnica e Liceu) e alguns bairros limítrofes da cidade de cimento, patrocinados por empresas que custeavam as entradas , alimentação e o traje, onde publicitavam-se.



Grupo Pintex – uma empresa que representava uma marca de tintas do mesmo nome




                                                                   Grupo 2M- uma marca de cerveja moçambicana



Pós Independência

Dois anos seguidos a independência, os carnavais seguiram comemorados a maneira antiga. Depois impôs-se uma paralização por opção política. Recuperou-se mais tarde, passada a ressaca emocional, própria do período, quando o município estava sob a batuta do Pio Matos; e o actual edil, Manuel de Araujo, deu continuidade. É um carnaval com participação popular, fundamentalmente com a juventude dos diversos bairros da cidade de Quelimane. Manteve-se o desfile de rua, no primeiro e último dias; sendo a verdadeira festa feita ao ar livre, numa avenida ou numa praça da cidade. Apesar de que o traço fundamental é a dança, mas há uma característica antiga que teima em resistir, ainda que timidamente: a pantomímia, que surge com um ou outro elemento dentro dos grupos, ou elemento isolado, motivo de gáudio da assistência. Em termos musicais, vai sofrendo uma evolução no que concerne ao reportório, posto que a música moçambicana se vai introduzindo, prevalecendo contudo com alguma evidência os compositores brasileiros.


Foto de Lo-Chi

Foto de Lo-Chi


Foto de Lo-Chi

Por quê Quelimane? Pergunta deveras difícil de responder. Tanto quanto sei, as outras cidades de Moçambique sempre fizeram carnavais, inclusive, numa das cidadess onde vivi muito tempo, o Carlos Beirão, do qual fiz referência numa crónica aqui publicada; o tal que provocou o movimento de uniformização de comemoração carnavalesca no Benfica; também foi um dos grandes impulsionadores do fenómeno na cidade da Beira. Há uma empresa que tem vindo a tentar fazer do carnaval de Maputo, uma coisa de fama internacional, movimentando empresas e capitais. A verdade porém, é que nenhuma delas consegue ter a dimensão como fenómeno, do carnaval de Quelimane.

Foto de Lo-Chi


Convém recordar, que para além do carnaval, há um outro evento anual, acontecendo em “Quelimane”, de uns tempos a esta parte, que já tem repercussão internacional; o festival do Zalala. Sem grandes promoções, ele vai acontecendo, movimentando mole humana impressionante, durante os três dias e noites que dura, com uma dinamica e animação sem rival. Mais impressionante fica, se contrapormos a essa realidade o facto de a Zambézia e consequentemente a sua cidade capital, estar entre os locais de maior incidência da pobreza, em Moçambique. A única resposta que encontro é que; faz parte do ADN deste povo.

                                                                              Festival de Zalala
Foto de Lo-Chi



Foto de Lo-Chi

*Texto feito a pedido, para substanciar um trabalho de final de curso

  





quarta-feira, 25 de março de 2015

A reforma que urge



Dando o mote ao desafio que o ministro da educação motivou, de repensar a educação, aqui estou eu como cidadão. E a educação precisa de ser repensada. E no repensar a educação, feita pelos antigos ministros do pelouro, simpatizei-me, muito especialmente, com dois excertos que tive oportunidade de ter acesso. Primeiro do ex-ministro Augusto Jone, que pôs a questão na quantidade de disciplinas da pequenada, da primeira a quarta classe, propondo que apenas se centrasse no português e na aritmética. Se os nossos alunos da primeira fase de escolaridade soubessem ao menos falar, ler, escrever bem e fazer as operações aritméticas mais basilares da vida; somar subtrair multiplicar e dividir, seria um estrondoso sucesso. Na vez de querermos que saibam tanta coisa e no fundo, saindo sem saber coisa nenhuma. Por outro lado, vi com bons olhos a chamada de atenção da outra antiga ministra de educação, Graça, que se centrou no nível dos nossos professores em termos de domínio da língua, que quer queiramos quer não, temos que a utilizar para a nossa desdita ou não, que é o português. E para quem tem ouvido reportagens com intervenção de professores até os de nível universitário, nota um tremendo deficit de capacidade de expressar ideias, e pior ainda, com um português que seja falado escorreitamente. Não faz uma semana, estive numa festa de graduação, onde solicitaram a um professor universitário que tivesse uma intervenção: uma pobreza de bradar aos céus; meu Deus! Mas entretanto, não se coibia de ser chamado doutor. Doutor de quê? E mais escandalizado fiquei eu, quando soube que havia sido designado tutor da defesa do graduado em questão, num curso de Direito, para desgraça da justiça, que já anda nas ruas de amargura. Tutor??!! As nossas universidades precisam de levar muito a sério a questão de formação dos supostos. Foi aí que compreendi a razão de, num dos recentes imbróglios de alunos e polícias, em plena televisão, ver um aluno universitário presentear-nos com a seguinte expressão: “ Nós estomos” não foi uma falha porque ele fez questão de repetir. Quanto a mim outro aspecto a tomar-se em consideração rápida e seriamente é o número de alunos que cada sala de aula deve comportar.

A educação precisa urgentemente de reformas ousadas, que em última estância vão prejudicar algumas pessoas: alunos e professores. Nestes processos é inevitável que haja prejudicados. Porém, se nos mantivermos neste diapasão, acabaremos numa autêntica babilónia, com custos altíssimos que provavelmente porão em causa a nossa existência como nação. Neste andar, teremos médicos a matar, polícias a roubar, juízes condenados, advogados defendidos, padres no feitiço, agricultores com fome, engenheiros civis sem tecto, técnicos sem técnica, etc., etc..

No capítulo da educação, quanto à mim, as facilidades são mais perniciosas que as dificuldades, e em última estância sei, que a exigência faz excelência. As universidades mais famosas a nível mundial não são as que facilitam, são as que exigem. Vi um documentário sobre o sucesso da Índia como resultado de um posicionamento estratégico corajoso, onde o Estado chamou a si a responsabilidade de aceitar a realidade de que nem todos temos o mesmo QI, e determinou que aqueles com o QI acima da média, frequentassem escolas especiais, com alto grau de exigência e dificuldade e os que se mantinham, até um determinado nível, eram seleccionados para cursos no exterior, em universidades altamente reconhecidas e exigentes. E hoje, o Estado que aceitou custos e perdas, começa a recolher os benefícios dessa corajosa medida. Quem não ouviu falar dos milagres a acontecer nas clínicas na Índia (provocando grande fluxo de turismo de saúde) a preços relativamente baixos, quando comparados com a Europa e América do Norte? O contrário também é valido. Nem todos nós fomos talhados para a academia, mas nem por isso deixamos de poder contribuir de diversas maneiras para o crescimento do país. Falo com conhecimento de causa. Somos três irmãos e houve um, nem com a lei do chicote as matérias escolares entravam. Fez a terceira classe a trancos e barrancos, mas hoje é, o que o Hélder Muteia chamou, na sua crónica, “técnico wamabassa”. É um homem de vários ofícios; carpinteiro, pedreiro, pintor, canalizador e nem por isso, deixou de ser uma pessoa a viver condignamente, e de uma utilidade indispensável.


O nosso descalabro do ensino primário, e por efeito dominó à outros domínios, começa precisamente nos centros de formação dos professores, onde as famosas metas complicam, iludem a realidade; quando a quantidade se confunde com qualidade. E a venalidade confere a academia os tons dedáleos do mercado do peixe. Nesta realidade, estes futuros professores só podem multiplicar a ignorância e a trafulhice, sem desprimor dos que se aplicam e levam a sério esta profissão nobre, que devia estar prestigiada.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Labour ominia vincit improbus




Caros amigos e colegas do graduado Fijamo
Labour ominia vincit improbus, é o que leio na gravata do meu amigo Ismael Fijamo, recém graduado no curso de Ciências Jurídicas, pela A Politécnica, frase essa que me parece constituir o axioma adoptado por esta instituição universitária. Curioso; uma vez perguntei o que significava a um estudante da mesma, e não vou dizer de que curso, para não escandalizar, e ele deixou-me com a sensação de surpresa.

Esse facto intrigou-me e pus-me a questionar, se a culpa era do estudante ou da instituição. Isso, porque sei que normalmente as grandes instituições, para qualquer um, que entre no seu seio, tem por obrigação integra-lo ou ambienta-lo. Dar a conhecer aquilo que hoje designam na linguagem empresarial de visão, estratégia, e valores da corporação. Apesar de que, os valores, raros são os organismos que os respeitam integralmente, sendo algumas vezes uma utopia, quando na realidade deveria constituir instrumentos para que a visão se transformasse em realidade. Aqui puxo a memória, a minha fácil compreensão, quando uma instituição multinacional que se preza, naquilo que eles chamam de “induction”, puseram-me a falar e a interagir com o administrador, o que era normal para a minha cultura, tendo em consideração o meu posto designado, passando por toda cadeia intermediária, até ao motorista e servente, o que me pôs aparvalhado, porque não entendia o porquê, na altura, mas depois, valorizei e percebi as razões e motivos, aliás a prática viva do que havia aprendido teoricamente no ISDE(Instituto Superior de Direcção da Economia), mas não havia percebido a dimensão: importância de uma integração integral, perdoem-me o pleonasmo. Se vocês estão atentos e como inteligentes que são, sabem que despendi esse tempo, dando o mote ao desafio que o ministro da educação motivou, de repensar a educação. E a educação precisa de ser repensada. Continuando; como todos nós sabemos, tenho a certeza, mas os que excepcionalmente não sabem, labour omnia vincit improbus, significa em português, trabalho persistente vence tudo, frase de um pensador romano, “Públio Virgílio Marão, nascido na cidade de Andes (actual Pietole), 70 a.C. e morreu em Brindsi, 19 a.C.; poeta, fortemente influenciado por outro bardo, porém este helénico, de nome Teócrito”*.

Pois bem, a veracidade dessa frase personificou-se neste homem, Ismael Fijamo Sadea, lincenciado, como mandam os cânones, cujo tem a honra de ser meu amigo, e eu amigo dele, constituindo a sua graduação o leitmotiv deste convívio, que se pretende lá mais para frente, leve e festivo. Mas antes da parte festiva do convívio permitam-me, ele e excelências, que eu vos apresente o anfitrião, sub Júdice. A sua graça já foi referida, dispenso e retenho-me no retrato. Este homem foi marcadamente influenciado por cinco pessoas:
-a sua mãe, Madalena Salima, de quem ele retém os ensinamentos básicos, porém estruturantes e visionários. Não a conheci, mas quando ele a descreve, fá-lo com tanta paixão e mestria, que quase acredito que a conheci.
-o seu irmão Oliveira, que não conheço, de quem ele fala amiúde, todavia nos momentos cruciais, ou quando pretende buscar um exemplo que vale por mil palavras, e ipso facto, servem de concreto, no sentido de engenharia civil, daquilo que acredita como valor.
-David Alone seu dirigente profissional, que nutria por ele e vice-versa uma estima especial. Dessa estima, estabeleceu-se uma espécie de compromisso intelectual, em que ele, o Fijamo, foi buscar as coordenadas e o gosto pelo saber. Eles divergiam, num aspecto essencial; Alone, simples e modesto, o meu amigo complicado e temperamental, mas depois compensa(va) com a racionalidade.
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E esse gosto pelo saber, levou-o a história, e foi aí que ele a revisitou, desde a Pré, a Idade Antiga, a Média, a Moderna e a Contemporânea. Nesse percurso, conviveu com matemáticos, filósofos, escritores, cientistas; e quis ele, que a marca fosse indelével, de tal modo que foi emprestar-lha a nomenclatura da sua prole masculina; ora então vejamos para aferir:
-ao mais velho Heitor, foi buscar a mitologia grega, onde este um príncipe de Tróia, foi um dos maiores guerreiros, cantado pelo Homero, que quando a ele se referia no seu poema épico, Ilíada, o designava ora de “domador de cavalos” ora de “espada flamejante”.
-ao segundo deu-lhe o nome de Eureka, Heureca, uma interjeição grega, usada, quando alguém encontra ou descobre algo. Expressão que se atribui ao Arquimedes (matemático grego), quando descobriu, no banho, a lei do peso específico do corpo.

Abro aqui um parêntese para especificar, que para as meninas, ele preferiu ir para os aspectos sentimentais e puramente culturais ( Loveness e Tchanaze), aliás, mostrando aqui a sua multi-discipline, ou quiçá realçando a sua faceta poliglota.

Isso para dizer, quase concluindo, que o meu amigo, Ismael Fijamo, antes de entrar para a academia, era um académico informal, e que apesar da idade madura, metendo-se numa aventura não muito vulgar, e não obstante tudo a desfavor, por causa da antecâmara da senilidade, não me admirei, quando informalmente, vários alunos, colegas seus, o consideraram melhor aluno do curso, -“labour ominia vincit improbus”. Antes de terminar, e parafraseando os ensinamentos do nosso grande criminalista, António Frangulus, dizer que o que acabou de ser dito, não é um juízo de suspeita, nem sequer de probabilidade, mas sim um julgamento, com a sentença transitada em julgado. E agora, nos finalmentes, dizer que, tenho a certeza, conhecendo a sua perspicácia e argúcia, munido do manancial de conhecimentos jurídicos legais recém adquiridos, que o meu amigo fará muito, do pouco tempo que lhe sobra, isso se atentarmos as estatísticas de esperança de vida, para se destacar com zelo, competência e brio, como profissional da sua área. Bem haja, o licenciado Ismael Fijamo Sadea.
Amilcar Gil de Melo

PS. Perdoem-me os viciados do termo doutor, repararam que em momento nenhum utilizei essa designação. Isso porque, tendo muito respeito pelo esforço do meu amigo, e sabendo ele, que muitas vezes utilizo esse termo no sentido irónico, as vezes até pejorativo; sem desprimor dos que realmente são, posto que em cada pedra que se chuta hoje encontramos os que eu designo de doutores micro-ondas ou doutores sem ciência, e que de doutos nada tem; não quis que, por equívoco ou analogia, melindrasse o meu amigo, pensando que o incluía nesse lote de embalagens vazias e nada atractivas.                              
*Wickpedia

**faltam aqui os outros dois, só que, são contas do outros rosários e em consequência não são para aqui desfiados.