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sábado, 23 de julho de 2016

Ematunaram-me*

Por Lo-Chi



Veio parar-me as mãos, hoje, uma fotografia minha, em hardycopy, aquando do lançamento, no salão nobre do Concelho Municipal da cidade de Quelimane, de três livros (Não chora Carmen; Livro mulher; Nós, os de Macurungo) do escritor Adelino Timóteo, uma das vozes socialmente interventivas, no concernente ao actual processo sócio-político.

Naquele entretanto, estava eu e o protagonista da efeméride; quem eu não conhecia pessoalmente e vice-versa, porém leitor dos seus trabalhos jornalísticos; trocando impressões, com a gesticulação que me caracteriza quando a verve me toma de assalto, sobre a minha cidade adoptiva e dele por naturalidade, enquanto decorria o respectivo autógrafo, nos livros comprados. Falávamos de Macurungo, Macuti, Miquejo, Ponta Gêa, Matacuane e sem deixar de abordar, não queríamos de modo nenhum incorrer num sacrilêgio, a Manga e a Munhava.

E sem saber, estava atento o plástico Khumalemo, que zás…perpetuou o momento com o respectivo ónus, que involuntariamente incorri, um pouco no estilo Ematum, claro está.

·         
 *de Ematum, umas das empresas conhecidas no escândalo das dívidas particulares assumidas ilegalmente pelo estado moçambicano, cuja factura em última estância recai sem apelo nos bolsos dos incautos cidadãos.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Carnaval de Quelimane; seu processo evolutivo*

Por Lo-Chi


O carnaval de Quelimane, do meu ponto de vista, teve três fases distintas; duas do tempo colonial que se arrastou aos dois primeiros anos da independência, e a terceira do momento actual.

Tempo colonial

1-      Os carnavais de bairro eram caracterizados; para além daquilo que falei na minha crónica inserida neste blogue; essencialmnte pela malta mascarada, que em grupo, ia evoluindo em diversos bairros da cidade com algumas incursões na cidade de cimento, onde para além da música executada por eles próprios, em violas de lata e palmas de acompanhamento e quando possível um pequeno batuque improvisado, dançavam. Mas era bem no fundo um movimento pantomímico, tragicómimo, como que uma representação teatral em movimento, ou ambulante se quiseres, que na inocência ia retratando ou caricaturando a realidade da vida. Pena não ter nenhuma fotografia desse tempo e movimento.


2-      Carnavais de salão promovidos pelos clubes, concomitante aos dos bairros, como se pode ver pelas fotos abaixo, era uma espécie de baile, em que se misturavam diversos rítimos porém sendo predominantes as marchinhas, onde uma camada da sociedade, normalmente a colonial e/ou assimilada participava. As máscaras não eram a tónica, porém vestes mais ou menos garridas.


Vê se consegue ver a diferença com a foto a seguir




Aqui a mescigenação acontecendo, mas timida a participação da camada considerada marginal



1-      O verdadeiro carnaval aconteceu, depois de um processo evolutivo de trasformação, ja nos últimos decénios da era; misceginou-se quase por completo. Acontecia no pavilhao do Benfica, onde o samba e a marcha, música predominantemente de compositores brasileiros, eram a exclusividade e os participantes essenciais eram os chamados grupos foliões. Veja fotografias abaixo. Esses grupos eram formados por alunos das escolas secundárias ( Técnica e Liceu) e alguns bairros limítrofes da cidade de cimento, patrocinados por empresas que custeavam as entradas , alimentação e o traje, onde publicitavam-se.



Grupo Pintex – uma empresa que representava uma marca de tintas do mesmo nome




                                                                   Grupo 2M- uma marca de cerveja moçambicana



Pós Independência

Dois anos seguidos a independência, os carnavais seguiram comemorados a maneira antiga. Depois impôs-se uma paralização por opção política. Recuperou-se mais tarde, passada a ressaca emocional, própria do período, quando o município estava sob a batuta do Pio Matos; e o actual edil, Manuel de Araujo, deu continuidade. É um carnaval com participação popular, fundamentalmente com a juventude dos diversos bairros da cidade de Quelimane. Manteve-se o desfile de rua, no primeiro e último dias; sendo a verdadeira festa feita ao ar livre, numa avenida ou numa praça da cidade. Apesar de que o traço fundamental é a dança, mas há uma característica antiga que teima em resistir, ainda que timidamente: a pantomímia, que surge com um ou outro elemento dentro dos grupos, ou elemento isolado, motivo de gáudio da assistência. Em termos musicais, vai sofrendo uma evolução no que concerne ao reportório, posto que a música moçambicana se vai introduzindo, prevalecendo contudo com alguma evidência os compositores brasileiros.


Foto de Lo-Chi

Foto de Lo-Chi


Foto de Lo-Chi

Por quê Quelimane? Pergunta deveras difícil de responder. Tanto quanto sei, as outras cidades de Moçambique sempre fizeram carnavais, inclusive, numa das cidadess onde vivi muito tempo, o Carlos Beirão, do qual fiz referência numa crónica aqui publicada; o tal que provocou o movimento de uniformização de comemoração carnavalesca no Benfica; também foi um dos grandes impulsionadores do fenómeno na cidade da Beira. Há uma empresa que tem vindo a tentar fazer do carnaval de Maputo, uma coisa de fama internacional, movimentando empresas e capitais. A verdade porém, é que nenhuma delas consegue ter a dimensão como fenómeno, do carnaval de Quelimane.

Foto de Lo-Chi


Convém recordar, que para além do carnaval, há um outro evento anual, acontecendo em “Quelimane”, de uns tempos a esta parte, que já tem repercussão internacional; o festival do Zalala. Sem grandes promoções, ele vai acontecendo, movimentando mole humana impressionante, durante os três dias e noites que dura, com uma dinamica e animação sem rival. Mais impressionante fica, se contrapormos a essa realidade o facto de a Zambézia e consequentemente a sua cidade capital, estar entre os locais de maior incidência da pobreza, em Moçambique. A única resposta que encontro é que; faz parte do ADN deste povo.

                                                                              Festival de Zalala
Foto de Lo-Chi



Foto de Lo-Chi

*Texto feito a pedido, para substanciar um trabalho de final de curso

  





quarta-feira, 25 de março de 2015

A reforma que urge



Dando o mote ao desafio que o ministro da educação motivou, de repensar a educação, aqui estou eu como cidadão. E a educação precisa de ser repensada. E no repensar a educação, feita pelos antigos ministros do pelouro, simpatizei-me, muito especialmente, com dois excertos que tive oportunidade de ter acesso. Primeiro do ex-ministro Augusto Jone, que pôs a questão na quantidade de disciplinas da pequenada, da primeira a quarta classe, propondo que apenas se centrasse no português e na aritmética. Se os nossos alunos da primeira fase de escolaridade soubessem ao menos falar, ler, escrever bem e fazer as operações aritméticas mais basilares da vida; somar subtrair multiplicar e dividir, seria um estrondoso sucesso. Na vez de querermos que saibam tanta coisa e no fundo, saindo sem saber coisa nenhuma. Por outro lado, vi com bons olhos a chamada de atenção da outra antiga ministra de educação, Graça, que se centrou no nível dos nossos professores em termos de domínio da língua, que quer queiramos quer não, temos que a utilizar para a nossa desdita ou não, que é o português. E para quem tem ouvido reportagens com intervenção de professores até os de nível universitário, nota um tremendo deficit de capacidade de expressar ideias, e pior ainda, com um português que seja falado escorreitamente. Não faz uma semana, estive numa festa de graduação, onde solicitaram a um professor universitário que tivesse uma intervenção: uma pobreza de bradar aos céus; meu Deus! Mas entretanto, não se coibia de ser chamado doutor. Doutor de quê? E mais escandalizado fiquei eu, quando soube que havia sido designado tutor da defesa do graduado em questão, num curso de Direito, para desgraça da justiça, que já anda nas ruas de amargura. Tutor??!! As nossas universidades precisam de levar muito a sério a questão de formação dos supostos. Foi aí que compreendi a razão de, num dos recentes imbróglios de alunos e polícias, em plena televisão, ver um aluno universitário presentear-nos com a seguinte expressão: “ Nós estomos” não foi uma falha porque ele fez questão de repetir. Quanto a mim outro aspecto a tomar-se em consideração rápida e seriamente é o número de alunos que cada sala de aula deve comportar.

A educação precisa urgentemente de reformas ousadas, que em última estância vão prejudicar algumas pessoas: alunos e professores. Nestes processos é inevitável que haja prejudicados. Porém, se nos mantivermos neste diapasão, acabaremos numa autêntica babilónia, com custos altíssimos que provavelmente porão em causa a nossa existência como nação. Neste andar, teremos médicos a matar, polícias a roubar, juízes condenados, advogados defendidos, padres no feitiço, agricultores com fome, engenheiros civis sem tecto, técnicos sem técnica, etc., etc..

No capítulo da educação, quanto à mim, as facilidades são mais perniciosas que as dificuldades, e em última estância sei, que a exigência faz excelência. As universidades mais famosas a nível mundial não são as que facilitam, são as que exigem. Vi um documentário sobre o sucesso da Índia como resultado de um posicionamento estratégico corajoso, onde o Estado chamou a si a responsabilidade de aceitar a realidade de que nem todos temos o mesmo QI, e determinou que aqueles com o QI acima da média, frequentassem escolas especiais, com alto grau de exigência e dificuldade e os que se mantinham, até um determinado nível, eram seleccionados para cursos no exterior, em universidades altamente reconhecidas e exigentes. E hoje, o Estado que aceitou custos e perdas, começa a recolher os benefícios dessa corajosa medida. Quem não ouviu falar dos milagres a acontecer nas clínicas na Índia (provocando grande fluxo de turismo de saúde) a preços relativamente baixos, quando comparados com a Europa e América do Norte? O contrário também é valido. Nem todos nós fomos talhados para a academia, mas nem por isso deixamos de poder contribuir de diversas maneiras para o crescimento do país. Falo com conhecimento de causa. Somos três irmãos e houve um, nem com a lei do chicote as matérias escolares entravam. Fez a terceira classe a trancos e barrancos, mas hoje é, o que o Hélder Muteia chamou, na sua crónica, “técnico wamabassa”. É um homem de vários ofícios; carpinteiro, pedreiro, pintor, canalizador e nem por isso, deixou de ser uma pessoa a viver condignamente, e de uma utilidade indispensável.


O nosso descalabro do ensino primário, e por efeito dominó à outros domínios, começa precisamente nos centros de formação dos professores, onde as famosas metas complicam, iludem a realidade; quando a quantidade se confunde com qualidade. E a venalidade confere a academia os tons dedáleos do mercado do peixe. Nesta realidade, estes futuros professores só podem multiplicar a ignorância e a trafulhice, sem desprimor dos que se aplicam e levam a sério esta profissão nobre, que devia estar prestigiada.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Labour ominia vincit improbus




Caros amigos e colegas do graduado Fijamo
Labour ominia vincit improbus, é o que leio na gravata do meu amigo Ismael Fijamo, recém graduado no curso de Ciências Jurídicas, pela A Politécnica, frase essa que me parece constituir o axioma adoptado por esta instituição universitária. Curioso; uma vez perguntei o que significava a um estudante da mesma, e não vou dizer de que curso, para não escandalizar, e ele deixou-me com a sensação de surpresa.

Esse facto intrigou-me e pus-me a questionar, se a culpa era do estudante ou da instituição. Isso, porque sei que normalmente as grandes instituições, para qualquer um, que entre no seu seio, tem por obrigação integra-lo ou ambienta-lo. Dar a conhecer aquilo que hoje designam na linguagem empresarial de visão, estratégia, e valores da corporação. Apesar de que, os valores, raros são os organismos que os respeitam integralmente, sendo algumas vezes uma utopia, quando na realidade deveria constituir instrumentos para que a visão se transformasse em realidade. Aqui puxo a memória, a minha fácil compreensão, quando uma instituição multinacional que se preza, naquilo que eles chamam de “induction”, puseram-me a falar e a interagir com o administrador, o que era normal para a minha cultura, tendo em consideração o meu posto designado, passando por toda cadeia intermediária, até ao motorista e servente, o que me pôs aparvalhado, porque não entendia o porquê, na altura, mas depois, valorizei e percebi as razões e motivos, aliás a prática viva do que havia aprendido teoricamente no ISDE(Instituto Superior de Direcção da Economia), mas não havia percebido a dimensão: importância de uma integração integral, perdoem-me o pleonasmo. Se vocês estão atentos e como inteligentes que são, sabem que despendi esse tempo, dando o mote ao desafio que o ministro da educação motivou, de repensar a educação. E a educação precisa de ser repensada. Continuando; como todos nós sabemos, tenho a certeza, mas os que excepcionalmente não sabem, labour omnia vincit improbus, significa em português, trabalho persistente vence tudo, frase de um pensador romano, “Públio Virgílio Marão, nascido na cidade de Andes (actual Pietole), 70 a.C. e morreu em Brindsi, 19 a.C.; poeta, fortemente influenciado por outro bardo, porém este helénico, de nome Teócrito”*.

Pois bem, a veracidade dessa frase personificou-se neste homem, Ismael Fijamo Sadea, lincenciado, como mandam os cânones, cujo tem a honra de ser meu amigo, e eu amigo dele, constituindo a sua graduação o leitmotiv deste convívio, que se pretende lá mais para frente, leve e festivo. Mas antes da parte festiva do convívio permitam-me, ele e excelências, que eu vos apresente o anfitrião, sub Júdice. A sua graça já foi referida, dispenso e retenho-me no retrato. Este homem foi marcadamente influenciado por cinco pessoas:
-a sua mãe, Madalena Salima, de quem ele retém os ensinamentos básicos, porém estruturantes e visionários. Não a conheci, mas quando ele a descreve, fá-lo com tanta paixão e mestria, que quase acredito que a conheci.
-o seu irmão Oliveira, que não conheço, de quem ele fala amiúde, todavia nos momentos cruciais, ou quando pretende buscar um exemplo que vale por mil palavras, e ipso facto, servem de concreto, no sentido de engenharia civil, daquilo que acredita como valor.
-David Alone seu dirigente profissional, que nutria por ele e vice-versa uma estima especial. Dessa estima, estabeleceu-se uma espécie de compromisso intelectual, em que ele, o Fijamo, foi buscar as coordenadas e o gosto pelo saber. Eles divergiam, num aspecto essencial; Alone, simples e modesto, o meu amigo complicado e temperamental, mas depois compensa(va) com a racionalidade.
-**
E esse gosto pelo saber, levou-o a história, e foi aí que ele a revisitou, desde a Pré, a Idade Antiga, a Média, a Moderna e a Contemporânea. Nesse percurso, conviveu com matemáticos, filósofos, escritores, cientistas; e quis ele, que a marca fosse indelével, de tal modo que foi emprestar-lha a nomenclatura da sua prole masculina; ora então vejamos para aferir:
-ao mais velho Heitor, foi buscar a mitologia grega, onde este um príncipe de Tróia, foi um dos maiores guerreiros, cantado pelo Homero, que quando a ele se referia no seu poema épico, Ilíada, o designava ora de “domador de cavalos” ora de “espada flamejante”.
-ao segundo deu-lhe o nome de Eureka, Heureca, uma interjeição grega, usada, quando alguém encontra ou descobre algo. Expressão que se atribui ao Arquimedes (matemático grego), quando descobriu, no banho, a lei do peso específico do corpo.

Abro aqui um parêntese para especificar, que para as meninas, ele preferiu ir para os aspectos sentimentais e puramente culturais ( Loveness e Tchanaze), aliás, mostrando aqui a sua multi-discipline, ou quiçá realçando a sua faceta poliglota.

Isso para dizer, quase concluindo, que o meu amigo, Ismael Fijamo, antes de entrar para a academia, era um académico informal, e que apesar da idade madura, metendo-se numa aventura não muito vulgar, e não obstante tudo a desfavor, por causa da antecâmara da senilidade, não me admirei, quando informalmente, vários alunos, colegas seus, o consideraram melhor aluno do curso, -“labour ominia vincit improbus”. Antes de terminar, e parafraseando os ensinamentos do nosso grande criminalista, António Frangulus, dizer que o que acabou de ser dito, não é um juízo de suspeita, nem sequer de probabilidade, mas sim um julgamento, com a sentença transitada em julgado. E agora, nos finalmentes, dizer que, tenho a certeza, conhecendo a sua perspicácia e argúcia, munido do manancial de conhecimentos jurídicos legais recém adquiridos, que o meu amigo fará muito, do pouco tempo que lhe sobra, isso se atentarmos as estatísticas de esperança de vida, para se destacar com zelo, competência e brio, como profissional da sua área. Bem haja, o licenciado Ismael Fijamo Sadea.
Amilcar Gil de Melo

PS. Perdoem-me os viciados do termo doutor, repararam que em momento nenhum utilizei essa designação. Isso porque, tendo muito respeito pelo esforço do meu amigo, e sabendo ele, que muitas vezes utilizo esse termo no sentido irónico, as vezes até pejorativo; sem desprimor dos que realmente são, posto que em cada pedra que se chuta hoje encontramos os que eu designo de doutores micro-ondas ou doutores sem ciência, e que de doutos nada tem; não quis que, por equívoco ou analogia, melindrasse o meu amigo, pensando que o incluía nesse lote de embalagens vazias e nada atractivas.                              
*Wickpedia

**faltam aqui os outros dois, só que, são contas do outros rosários e em consequência não são para aqui desfiados.

sábado, 7 de março de 2015

Muvure, a árvore chuveiro




Na localidade ou povoado de Chimucono, localizado a mais ou menos vinte quilómetros de Dombe, na província de Manica, vi esta árvore que me cativou pela exuberância da sua copa, bem frondosa. Mal parei fui tirar umas fotografias. Um senhor, lá residente, comerciante e agricultor, conhecido nos meandros do amigos por “bóer”, mas cuja graça Vilaça, ficou intrigado pelo meu fascínio pela árvore, e em consequência prontificou-se de imediato em dar-me detalhes da mesma: nome local, Muvure, que significa sombra, cujas folhas dificilmente caem, porém quando acontece, numa altura própria, e começam a  folhear de novo, toda a copa se transforma num chuveiro natural, em que permanentemente pingos de agua vão caindo, e deixam o local debaixo da copa, húmido, e segundo o mesmo senhor, acontece no verão. Por outro lado, informou-me que há menos de um mês esteve uma equipe de biólogos estrangeiros no local estudando a árvore. Outro pormenor interessante, é que normalmente estas árvores nascem aos pares, um macho e uma fêmea, num intervalo entre elas não mais de 600 metros. E o fenómeno atrás referido apenas acontece com a fêmea.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O poder de Estado



Sem entrar em detalhes da função do Estado, já diversas vezes explanado pelos competentes tratadistas, mas a minha percepção e desejo, é que o Estado deveria ter mais acções e principalmente as que não necessitam de grandes dispêndios orçamentais, porém acções que tenham efeitos a partir do empenho dos seus agentes. Focando fundamentalmente o aspecto de controlo e repressão como aspectos a centrar-me, sem contudo querer significar que o papel do Estado se resuma a esses elementos.

Deixem-me contar-vos um facto que presenciei, num pais que não vou dizer o nome para evitar sugestões. Estava eu procurando por um determinado endereço, com o qual não atinava e alguém me diz, para me dirigir a um polícia que decerto me iria indicar. Lá vou eu meio a medo e de coragem, em direcção a um polícia de compleição física que seguramente se pode classificar de taludo, na verdadeira acepção da palavra, e pergunto-o, ao que curiosamente, bem solicito com uma manifesta simpatia, me indica e sugere a possibilidade de me levar ate ao local, ao que eu prontamente rejeitei em virtude de já ter entendido. E comento com o meu companheiro de altura, a solicitude e a simpatia, que no meu entender, mais parecia de uma assistente de bordo ou de uma enfermeira que se preze, que de um policia. Localizado o endereço, resolvida a questão, lá nos fizemos a rua, no sentido inverso. Qual é o nosso espanto, o mesmo policia que irradiou simpatia quanto bastasse, estava com os dentes arreganhados e cassetete em punho, pondo nos eixos um cidadão que se confundiu e pôs em causa a sua autoridade; ou melhor a autoridade do Estado de quem ele era o seu agente.

Essa história leva-me a uma conversa tida naquelas tardes amenas, de lazer, em que se discutia, no caso, se aos pais se devia respeito ou, se o medo é quem imperava no processo de educação dos filhos. Depois de muita opinião baseada em factos ou suposições, alguém disse e com razão que nos deixássemos de veleidades, que no processo de educação o medo impera em primeiro lugar, e no progenitor que o sabe dosear e aplicar em momentos oportunos, consegue trazer o equilíbrio do respeito, cuja origem é o medo sem dúvida nenhuma. Reflecti e recordei-me que aquela aversão primeira, ao sacrifício de ir a escola e fazer deveres, enquanto outros no meu bairro, despendiam os seus tempos em brincadeiras e malandragens a tempo inteiro, só foi possível desfazer ou anular, graças a ditadura do meu pai, que não dava margens para discussão em algumas matérias, e se porventura ensaiasse desobediência, uma sova era correctivo quanto bastasse; e se ontem via como inflexibilidade, hoje só tenho a agradecer a agradável e útil ditadura. E perguntem-me, se a tareia era o critério de educação do meu pai, e eu dir-vos-ei que não, posto que meus irmãos nunca apanharam, já porque a prontidão de resposta nas ordens por ele emanadas, eram imediatas por parte dos meus irmãos. E só entrei na linha, com o correctivo adequado ao meu comportamento.
                                                                              Foto retirada do Google

Hoje faz-me espécie, ver os cabos de energia a serem roubados por moçambicanos, sem que medidas suficientemente enérgicas e na proporção do prejuízo sejam tomadas de maneira efectiva e eficaz. Preferimos ver milhões de moçambicanos – no caso dos roubos de cabo acontecido agora quando das cheias da Zambézia – os quais ficaram privados de alimentos e provavelmente de assistência adequada de saúde, por defender os direitos humanos de meia dúzia de ladrões. E os direitos da população não apenas de Nampula e Cabo Delegado bem como de parte da população da Zambézia ficam aonde? Hoje vejo, nas nossas cidades contra todas as regras e princípios de saneamento, lixo a ser deixado a qualquer hora e a ser recolhido pelo Conselho Municipal a qualquer hora também, e com surtos de cólera que nos custam milhões em nome de uma demo-anarquia. Hoje vejo, os motoristas com a maior das veleidades fazerem regra a violação das normas de condução. Hoje por hoje, vejo estrangeiros com facilidades, tirar o Bilhete de Identidade – pondo em causa a soberania - e os moçambicanos com imensas dificuldades de possuí-lo e aqueles tirarem o sarro com estes. Esses mesmos estrangeiros chegarem e usurparem o poder de Estado – pondo em causa a soberania - matando animais protegidos, retirando recursos naturais ilegalmente e com a maior das naturalidades e nós completamente atados, porque o poder de Estado confunde direito humanos com permissividade anárquica e perigosa, que põe em causa toda uma nação sustentável.

Se me perguntarem o que prefiro como sistema politico, direi, que prefiro a democracia, mas uma democracia robusta e equilibrada que a par da legalidade e simpatia e o bem servir dos seus agentes, esteja lado a lado com a intransigência ante ao fazer cumprir o que constitui norma, nem que para isso tenha que reprimir e por em causa o direito humano individual na salvaguarda do colectivo, do que a permissividade que permite a ditadura dos ladrões, sequestradores e afins, conferindo-lhes maior direitos humanos que a dos honestos e trabalhadores.
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PS. Aliás, não é novidade ver-se estrangeiros bem articulados com algumas franjas do poder, ou com algumas notinhas no bolso, humilharem moçambicanos, quantas vezes gratuitamente. Sou contra a xenofobia, bem como super contra estrangeiros humilharem moçambicanos em Moçambique; sugere-me sempre uma outra luta de libertação nacional.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Chitima: o que queremos afinal?!



Tem piada que quando fui a Chitima, pela primeiríssima vez, vi a sinalética, dizia Estima, mas parece que a recuperação do nome autêntico, fez com que alguns perdessem a autenticidade. A propósito de quê, esta diarreia verbal, podem perguntar os caros leitores.
Nunca me simpatizei com o termo auto-estima. Não me perguntem porquê, porque não sei. Porém, sei que, talvez o equivalente, tem a ver com o orgulho, orgulho que tens que ter de ti próprio. Provavelmente aqui se encontre a explicação da minha aversão; na formação ou formatação religiosa que tive,  que condenava o orgulho. Mas religiões a parte. Tanto quanto pude perceber, a auto-estima tinha como objectivo, que o moçambicano se valorizasse, posto que todo o processo de colonização teve como fito, desvalorizar, ou melhor espezinhar todos os valores moçambicanos. E o conceito de auto-estima apareceu, como forma de dizer que nós tínhamos que nos resgatar em termos de valores. E politicamente falando, estamos saindo da ressaca da auto-estima como slogan. Porém, olhando para a catástrofe de Chitima dá-me a sensação de, qualquer coisa que não surtiu efeito.
Imagino-me numa festa ou tertúlia de amigos, onde exclusivamente fomos chamados para beber whisky, composto por cinco garrafas ou garrafões de cinco litros, como as que aparecem algumas vezes por aí. Não sei porque malfadada sorte, aparece alguém que não gosta de nós ou do nosso convívio e sorrateiro coloca um veneno, numas estraquinina, noutras cianeto, dentro do john walker. Em consequência, começamos com aqueles desarranjos intestinais, que vira para uns intoxicação e para outros envenenamento; e uns rapidamente vão ao hospital, outros não; por motivos que só, cada um pode saber ( e eu posso tentar adivinhar, desde o receio de ser mal atendido, bem como porque com conhecimento de causa, não quero que o meu mal, que eu acho menor, vire num óbito certo, porque os nossos hospitais viraram morgue, por razões como incompetência, desleixo, incúria, etc. etc.). Porém, o sucedido pela amplitude, levanta um aracéu de todo o tamanho, movimentando o país inteiro, como é comum em casos que tais, posto que para uns, políticos, é altura de aparecer para mostrar identidade, para outros, comerciantes, é altura de fingir solidariedade para mostrar responsabilidade social, fingidos em atonia de estarmos todos consternados, mas logo em seguida, vamos para a boate mais próxima, esquecidos do próximo que nos é deveras distante. Repórteres são mobilizados; e decerto que nas reportagens, aparecerá, e com razão, que o whisky foi envenenado e vitimou tantas pessoas, das quais x morreram e outras tantas internadas, mas com alta. Ninguém dirá que o pombhe, alias, whisky matou, mas sim que foi contaminado com um veneno que matou uns e a outros provocou sérios distúrbios.
Porquê que o envenenamento do pombhe, vai pôr em causa o pombhe?! O whisky é uma bebida tradicional escocesa que se industrializou, bem como o gin é uma bebida tradicional inglesa que se industrializou, assim como a amarula é uma bebida tradicional - canhu se quiserem - que os sul-africanos industrializaram.
Foi com tamanha consternação que vi, do acidente fatídico, o objecto de acusação na vez de ser o veneno, envenenarem midiaticamente a nossa bebida tradicional, com argumentos da forma e meios de a confeccionarem como se de repente todas as culpas do nível alcoólico do país recaísse sobre a secular bebida, como se seculares resistidas de todas as perseguições coloniais, voltassem num pesadelo. De tal modo que, vi e tive a sensação de estar, um jornalista, num embaraço imprevisto, quando numa pergunta canhestra, o que estava a beber, esperando que ele dissesse pombhe, a um consumidor azougue, e ele responde astutamente, uma bebida alcoólica, e o repórter se perde lancinante, sem saber o que perguntar em seguida, de tão formatado que ia. Mas todo esse inesperado ataque ao pombhe, deu-me a sensação que em Estima, ou melhor, Chitima se perdeu a auto-estima, desbaratando o que é nosso, imputando toda culpa do nível alcoólico nela, esquecendo-nos de outras mais incentivadoras e mais perniciosas como, os travel, os paradise, e etc., etc..  

Em Portugal, para exemplo, nos lagares como é que se esmaga a uva, produzindo o mosto do vinho?

Imagine, caro compatriota, se é capaz, produzirmos uma bebida de exportação, com o mosto feito de canhu, jambalão ou caju, em que meia dúzia de pretinhos, se pusessem a esmagar com os pés, o que não viria nos midias, um autêntico opróbrio, falando das exalações mefíticas do chulé, suor e catinga, a mistura com aspectos de sanidade, de modos que seriamos liminarmente banidos de exportar a dita cuja. Mas o vinho como é produzido por quem produz, até pagamos a preço de ouro, e bebemo-lo chamando o néctar dos deuses.
Se há algum mal na forma de confeccionar pombhe, o caju, o canhu, na vez de o combatermos, devemos é arranjar meios de potenciar os produtores, de modo a produzi-la comme il faut; posto que esse vão combate, me leva aos tempos desagradáveis.