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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Os celulares da minha terra


por Lo-Chi


Os celulares da minha terra*, muitos deles com preços promocionais das operadoras, falam várias línguas, com incidência maior para o lômwé, chuabo, macua, sena e português. Algumas vezes o inglês, bom ou mau, mas suficientemente desenrascado. Nessa comunicação multi-língua ou multilingue, tem assuntos díspares. Questionam se a chuva tem caído, se a machamba está lavrada, se a namorada ainda sente saudades, questionam a fidelidade da companheira distante, perguntam pela saúde da velha mãe, interpelam pelo avanço pedagógico académico do filho, da mesada enviada pelo amigo para aquela localidade desbancarizada. Nos celulares da minha terra, fala-se da chuva que está para chegar e tudo a ela ligada, dos dramas das cheias e das secas, expressa-se o temor dos ventos fortes que destapam o tecto das nossas escolas recém edificadas, quando as antigas resistem, fala-se das fontes de água construídas e por construir, do milho produzido e comercializado ou não, da justeza ou não dos preços, exprime-se tristeza pelo sujeito electrocutado pela faísca que caiu no povoado ainda sem electricidade da nossa Cahora Bassa, fala-se da paz que escorrega e se esfiapa entre os nossos dedos impotentes. Pasmados, os celulares da minha terra falam do hospital algumas vezes morgue, e do simpático professor que outras vezes cai na tentação da sobrevivência, do enfermeiro aplicado, mas destituído de medicamentos. E os celulares vão falando tudo isso, quantas vezes carregados de emoção, e por isso mesmo, com veriditos justos e injustos, porém autênticos e intensos.

Enquanto isso, os smartphones do meu país, estão numa outra rede, de uma operadora exclusiva, onde a língua longe daquela dos que na minha terra faz uso dela no seu quotidiano comunicacional, utilizam quiçá o grego, provavelmente vernáculo, cheio de expressões idiomáticas, as vezes o português tem uma outra categoria de mensagem, onde a rabulice predomina, e a festinação e o ditirambo, fazem regra, falam da paz e fazem a guerra, discutem desenvolvimento e procedem como os mais rústicos seres subdesenvolvidos, propalam democracia e exercem exclusão e tiram a moçambicanidade, falam de consultas comunitárias desconsultadas, numa rede exclusiva, e não conseguem construir o inter, ficando na sua intra, mandam recados crispados, descrevendo factos tão diferentes, resultados tão abstractos, que para aqueles que tem acesso a esses recados e mantém um pouco de bom senso, ficam com a sensação de estarmos a falar de países e terras bem diferentes e distantes. Falam de segurança e os sequestros disseminam-se, feitos massedjheles após chuva torrencial. Conduzem o trânsito da informação na contra-mão; no semáforo do diálogo, confundem o verde com o amarelo e não poucas vezes com o vermelho e julgam-nos daltónicos. Esqueceram-se que nos mandaram aprender as cores na alfabetização. Os smartphones da minha nação em construção, somos avisados, que existem os que são genuínos e outros nem tanto assim, e no canal internacional os mesmos cantam Mandela. Os celulares inteligentes do meu país coscuvilham sobre polícias ladrões, heroicizam o juiz condenado, uniformizam FIRmente os defraudantes das eleições. Nos smartphones do meu país, encomendam-se flores para o dia do Amor, e no entretanto arremessam balas de AK47 que matam os nossos irmãos desirmados no ódio alheio.

E é por tudo isso: meios, língua e rede, edificam vasos descomunicantes, de tal maneira que o meu país é formado de vários países, desencontrados. Quando alguém te disser que conhece Moçambique, urge perguntar: qual Moçambique?!?!

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* como de outras terras de que meu país é feito




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

pensando Mocambique

Por Lo-Chi

      Há branqueamentos políticos, de tão forçados e intemporais, se assemelham a vã veleidade de lavar a cara com as gotas de orvalho.

                                                                                                      In "soliloquio"

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Chove

Por: LO-Chi

Chove.

Oiço atentamente a música que a chuva produz, quando de encontro ao pavimento ou as pedras da calçada. E nessa audição recordo o som que essas gotas de prata produzem, em plena cobertura de zinco ou de colmo. É um lamento feito de nostalgias, cheias de claves pungentes, lâminas dilacerando o nosso ser receptivo a essa música, composta de notas dolentes que só elas podem fazer semelhante sonata, que abreviava as minhas horas de vigília, naquele magnífico bairro da minha infância.

E nessa infância despreocupada e cheia de alegria infantil, eu e os amigos, cantávamos, num ritmo sem compasso, uma música que nos enleava. Cantávamos nos dias de chuva , porque sabíamo-la construtora de piscinas, feitas em ventres dilacerados da terra, que eram o cadinho desse metal friamente liquefeito, cujo aprisionamento, proporcionava-nos largas braçadas. Por isso, debaixo da chuva, cantávamos a presente e a futura alegria. Contudo, era uma alegria cortada de vincados receios de sermos admoestados pelo banho no chuveiro das grandes alturas, ou nas futuras e vindouras piscinas.


Chove. Passeamos no carro; deitados na cama; vemos lágrimas torrenciais deslizando nos vidros das janelas. É um bem-estar inefável, um arrepio, uma mutação que sentimos nas nossas fibras. Quando a chuva acontece, sentimos uma sensação de paz e calma, mas há sempre um ínfimo quê que nos deprime, pois que todo o doce fremer das nossas fibras, vem mesclado de um certo átomo de melancolia, as vezes até de solidão, mesmo que com alguém ao lado. A chuva banha sempre, o ambiente duma imponderável tristeza ou de uma nostálgica alegria. Talvez porque ela transporta-nos às suas origens, os altos céus, e timbra-nos com aquela leveza própria das alturas, e aquela nostalgia que só o cinzento em que o céu se encontra banhado é capaz de simbolizar. E a nostalgia é  própria da solidão.

Chove. E com todos esses pensamentos pego em mim e ando debaixo dessas lágrimas que me dão a fresca ilusão de magnitude e posse. Passeio pelas ruas, deambulo pela marginal, e como um sonâmbulo, noto que tudo é imobilidade, indo até a natureza que se mantém estática, apreciando o fenómeno

Só, como um fantasma, vejo a ausência de pessoas, o que me traz nesta solidão a impressão de que tudo é meu.

A chuva traz conforto, paz e harmonia, mesmo assim melancolia. E nessa poalha de consternação, continuo sacrílego, violando a imobilidade, deambulando pelas ruas; e cheio de frémitos arrepios e com eles uma emoção indescritível de ver correr fiozinhos de água. Paro; e aprecio embebido numa mística atenção, a queda livre dessas gotas cristalizadas. E enquanto gozo esta sublimação a pureza que contenho e  a nódoa que continha, perplexo noto na raiz do nariz uma partícula de água…. Chuva ou lágrima? Uma lágrima não! Não, porque não choro. E convenço-me. Mas porquê tanta veemência- pergunto-me – em não chorar, se chorar é a liberdade de viver uma forte emoção.


A chuva é triste! A chuva é triste porque é o choro do céu em exuberantes lágrimas que trazem a marca dos olhos repletos de mágoas liquefeitas. Chove, sentimo-nos aliviados porque com o céu, sofremos uma descarga psíquica das cargas emotivas que contemos num púdico preconceito de que o homem não chora.

Chove. Sentimo-nos comedidamente expansivos, porque choramos e as nossas “lágrimas se confudem com os pingos dessa chuva”  



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Uma figura privada no meio de duas figuras públicas

Por Lo-Chi




                                                      António Barros, Lo-Chi, Eduardo Constantino

As duas figuraças, que se publicaram através da caneta emprestada a voz como profissão, um exclusivamente na Rádio Moçambique, o outro um pouco mais prostituído, profissionalmente falando, claro esteja, acabou passando da voz à imagem, e agora numa espécie de pausa que se impôs. Não é para qualquer um. O primeiro, terceiro na imagem, conheci-o em Nampula, onde fomos trocando uns alós informais, e o tempo lhe foi dando um carácter mais informal ainda nos desembrulhos do dia a dia, até que desformalizamos por completo, fruto de vários cruzamentos, apesar do seu público ser de âmbito nacional, respeito é bom e ele gosta, ja que Secretário Nacional do Sindicatos dos Jornalistas. E hoje já fazemos essa parceria público privada. O outro, com um sorriso meio comprometido por circunstâncias que a imagem revela, a nossa relação vem de outros carnavais, onde brincávamos, joelhos negros e calejados, nos murrôtôs* do Macuse e não só. Se de amizade imperturbada se pode falar, não o façam, apontem para nós, já que um facto não é tergiversável: quarenta e dois anos de percurso em comum, feito de solidariedades, partilhas e comunhão de aventuras, dores, prazeres e momentos difíceis da vida. Acho tanto quanto baste! E eu, o privado, levaram o meu estatuto à letra e quase que me domiciliavam na privada- no sentido brasileiro do termo- e em consequência, quando as senhoras se sentiam no aperto, tinham que me pedir autorização, confundidas, pela minha localização, que lhes induzia à suposição de eu ser o regulador do w.c.., vê se pode!?

* mangais em língua chuabo



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Resposta à uma pergunta várias vezes formulada


por Lo-Chi


Primeiro comecei com apenas o meu nome artístico, estampado numa coluna, cujo nome também estaria na gaveta do pouco comum, e havia razão mais que suficiente da pergunta. Em face disso, entendi para não ser um anónimo, no sentido de sem face, plasmei a minha fotografia, mesmo assim subsiste a pergunta. Quem sou eu? Não poucas vezes me perguntaram, e eu sempre me escusando. Porém, hoje, quiçá vendo a pergunta numa outra perspectiva, propus-me uma resposta. E aí está.

Não me conheço ainda e penso que morrerei sem me conhecer. As vezes, julgo que sou uma coisa, para logo a seguir compreender que nada disso sou e que faço parte de qualquer coisa bem diferente. Umas vezes, aceito-me tal e qual e...outras; não! Revolto-me, quero-me outro. E se olho para atrás, não sei de facto o que fui. Como posso saber, se me vario tão frequentemente e tão diferentemente.

Sei que fui de tudo: ladrão (e nunca roubei nada do alheio, senão de mim próprio), vagabundo (nunca passeei pelas ruas, nem estive andando, andando, sem destino...mas imaginei-me), poeta (nunca fiz poemas, senão que escrevi versos que se pretendiam), libertador (de país nenhum, mas de coisas múltiplas), construtor (e não peguei tijolo nenhum que fizesse parede), preguiçoso (ah...isso fui de facto, bastas vezes), ignorante...sei lá, quantas coisa mais?! Acima de tudo nada. Debaixo de tudo, alguém que se procura e acha justo encontrar-se perdido, nesse eu deslimitado. Esse eu que faz a pessoa.

O que é uma pessoa? Se não; as acções no sentido de satisfazer os seus gostos; a reacção perante os condicionalismos impostos; a insurgência ante os ditados; o movimento com tendência a contornar os óbices da vida; a maneira de reagir perante os factos do dia a dia, que nos vão fazendo o que somos e o que temos vindo a ser. Eu talvez seja um surpreendido! Um surpreendido perante esta vida enorme com toda sua enormidade. De vez em quando um disfarçado, face a estes factos surpreendentes. Sempre quem sabe(?), um des-integrado de toda esta complexidade atónita dela mesma.

Constitui sempre, um conjunto de emoções circunstanciais. Sou uma espécie de progressão (aritmética ou geométrica pouco importa) emocional, sem constante. Quando me sinto função, prefiro estar em função de mim mesmo.

No fundo, bem no fundo, sou o princípio e o fim, o meio e o objectivo. Sou o vento, sou a brisa, conforme as conveniências, minhas e alheias. Muitas vezes até, a pedra da calçada, a alma inanimada; sou a razão e a lógica, sou o nada fundido em desejo. Outras a sombra de um homem que não existe. Sou enfim, a intrépida convulsão da minha mente.



















segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O aeromodelismo

Por Lo- Chi


A primeira vez que ouvi falar dessa actividade desportiva, foi pelo meu irmão, que a praticou através das actividades da Mocidade Portuguesa ou do escutismo, cujo monitor foi o já falecido David Ribeiro. Depois disso, nunca mais. De repente, naqueles meu destinos laborais, errando Moçambique fora, estou inesperadamente em Inhambane e... zás, dou com o aeromodelismo em força.


Nesse zás de imprevisibilidade, levou-me irremediavelmente aos primórdios dos anos do meu filho, onde o seu pai, que comprava todos os tipos de brinquedos para ele levar avante os seus sonhos, para satisfazer bem como incentivar as curiosidades pueris, quantas vezes não se viu ele próprio envolvido nas quimeras e imaginações, de tal sorte que as vezes, à título de acompanhar o petiz, excedia o razoável tempo de utilização dos brinquedos, com tamanho envolvimento, e lá estava ele de joelhos, num vum vum vum, e rum rum rum, rasgando as imaginadas ruas e ruelas, trilhos e carreiros, ares e espaços aéreos, com tal intensidade e extensidade que acabou provocando o irónico comentário da mãe dos seus: o pai mais criança que o filho, afinal compraste o brinquedo para o teu filho ou para ti?!.


E foi nesse Inhambane aeromodelista, num evento internacional, que me revi, vendo adultos, entre a velhice e a infância, não de joelhos, porque isso faz calos, mas de cócoras, reparando e repondo as peças dos seus modelitos, colocando-os nas pistas, entusiasmadíssimos, entre a criancice e a adultice, repovoando a infância a preços de ouro: modalidade caríssima essa. Mas quantos não pagamos, e não pagaríamos, para voltarmos a ser crianças??!!


Os aviões crianças nas pistas transformados em brinquedos, à sério, dos matulões meninos pilotando, em acrobacias de faz de conta, todavia requisitando perícia, sob o olhar serenos dos aviões adultos, que iam presenciando as manobras, que os pretensos pilotos gostariam de efectuar neles. Algumas tão arriscadas, que acabaram em verdadeiros acidentes aéreos.


No fundo bem no fundo, a satisfação de um sonho não realizado ou se quisermos interrompido; quiçá.